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Defina os critérios de correção de provas com toda a equipe

Marque um encontro de formação para definir os critérios de correção de provas e como usar os resultados

por:
CR
Cinthia Rodrigues
01 de Abril 2010 - 12:00

Depois de corrigir uma prova, os professores passam as notas para uma planilha: Ana tirou 7; Beatriz, 5; Caio, 8; Denis, 4 e assim por diante. Mas o que esses números significam e o que é possível fazer com eles para melhorar a aprendizagem daqueles que não tiveram um desempenho satisfatório? As provas bem elaboradas fornecem elementos valiosos sobre o nível da turma e, para encontrá-los, é necessário que a correção seja feita com essa intenção. O aluno acertou por acaso ou entendeu os conteúdos, mas se atrapalhou na resolução? Errou por distração ou por não conhecer os procedimentos necessários para chegar à resposta? Quantos demonstraram familiaridade com o tema e quem tem dúvidas sobre o que foi discutido em sala de aula?

"Independentemente de uma resposta estar certa ou errada, ela sempre dá sinais sobre o nível de aprendizagem da turma e aponta os caminhos que o professor pode escolher para dar continuidade ao planejamento", afirma Jussara Hoffmann, consultora de avaliação e professora aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Uma boa maneira de exigir que os resultados não fiquem apenas nos números é a coordenação pedagógica solicitar aos professores relatórios com informações sobre a aprendizagem dos conteúdos, dos procedimentos e das habilidades e não apenas as notas e os conceitos. "Em um registro completo, o professor precisa explicar o que o aluno sabe e o que ainda tem de aprender e, por isso, precisa ser revisto", afirma Lea Depresbiteris, doutora em Psicologia Escolar pela Universidade de São Paulo (USP).

Um encontro de formação planejado para discutir a correção de provas é capaz de esclarecer à equipe pedagógica sobre a função formativa da avaliação e estabelecer alguns critérios a ser seguidos por todos os professores da escola (leia a pauta da reunião no quadro da página 3).

Quando a equipe pedagógica é pequena, fica mais fácil fazer essa formação reunindo todos em um mesmo encontro. Caso contrário, é melhor formar grupos distintos - por série, segmento de ensino ou disciplina. Porém o enfoque das reuniões é o mesmo: discutir os critérios de correção e como as respostas dão pistas sobre as carências das turmas.

O resultado da correção serve para orientar o planejamento das aulas. Com base no diagnóstico dado pelas provas, a equipe deve considerar os conteúdos que precisam ser revistos e a melhor maneira de reapresentá-los. Há o consenso entre os educadores de que, se mais de 20% da turma foi mal na avaliação, é provável que outros alunos ainda tenham dúvidas e o coordenador pedagógico precise ajudar o professor a encontrar uma estratégia de ensino diferente. "Mesmo que poucos tenham tido um desempenho insatisfatório em um conteúdo, o melhor é retomar a matéria com a classe toda", diz Jussara.

Caso um ou dois alunos demonstrem não ter compreendido o conteúdo, o coordenador deve ajudar o professor a planejar atividades específicas para eles, de acordo com a necessidade de cada um - para serem feitas durante a aula ou como uma tarefa de casa.

É certo que cada disciplina tem suas particularidades e diferentes maneiras de avaliar. Geralmente, as perguntas com respostas dissertativas são as mais eficientes para dar indícios do estágio de aprendizagem. Nas provas de História, Geografia e Ciências, elas são mais utilizadas, o que permite acompanhar o pensamento do aluno, as informações que ele tem, como as aplica ao problema e que caminhos usa para chegar à conclusão. Nas de Matemática, isso também é possível: basta prestar atenção nas etapas de resolução do problema e não olhar somente o resultado final. Assim, é possível detectar se o erro está na compreensão do conteúdo, nos procedimentos ou na técnica operatória (como se vê no exemplo abaixo).


Prova de Matemática

Foto: Dercílio
Fotos: Dercílio

Interpretando o raciocínio 
O professor deve estar atento para saber se o aluno compreendeu a ideia do problema e escolheu uma estratégia adequada para solucioná-lo. Neste caso, é usado um procedimento adequado (a divisão), porém houve um erro no uso da técnica (o algoritmo). É uma oportunidade para lembrar aos docentes que a discussão de um erro pode favorecer a conceitualização. 

Certo, errado ou meio certo? 
Quando acontece de o procedimento estar adequado, mas a finalização errada, como neste caso, o professor pode considerar a resposta meio certa. O importante é que o aluno possa entender em que ponto errou - e para isso o comentário do professor na prova e depois durante a aula é fundamental para que o aluno retome seu procedimento.

É importante lembrar ainda que respostas diferentes das previstas pelo professor para questões abertas não necessariamente estão erradas (veja uma explicação no infográfico abaixo).


Prova de Língua Portuguesa

Foto: Dercílio

Além do gabarito 
O educador deve estar atento para não confundir uma resposta fora do gabarito com um erro. No caso ao lado, o professor esperava conectivos que mostrassem a contradição entre as duas frases (mas, porém, contudo, todavia etc.). O "por isso", no entanto, também está correto, pois une as frases com sentido: o de que os homens invejam os pássaros. 

Retomar objetivo 
Antes de iniciar a correção, o professor deve retomar a intencionalidade da pergunta e o motivo de sua elaboração. Aqui, a intenção era conferir se a história foi compreendida e o aluno mostrou que sim. Se o objetivo fosse verificar se o estudante entendeu as aulas de pontuação, a resposta estaria errada. 

Não rasurar 
O professor está correto em apontar todos os erros percebidos, mas não deve fazer intervenções em cima da letra do aluno, como exemplificado aqui, pois isso pode impedi-lo de identificar seus erros. O ideal é escrever a correção à margem da prova, dando as explicações necessárias. 

Diagnóstico oportuno 
Pode-se aproveitar a prova para diagnosticar erros recorrentes. No exemplo, o aluno faz uso intermitente do "e", característico da linguagem oral. No replanejamento das aulas, um bom caminho é investir na revisão do texto e na diferença entre a fala e o registro escrito.


Até mesmo em questões de múltipla escolha, a alternativa assinalada dá pistas sobre o processo de aprendizagem de cada aluno (como mostra o quadro abaixo). Se a opção escolhida, embora não seja a certa, tem vocabulário, forma e conteúdo próximos ao que foi trabalhado em sala de aula, é indício de que o estudante tem noção do tema e compreendeu o enunciado. Nesse caso, cabe ao educador se debruçar sobre o tópico para entender qual ponto ainda não está claro e programar a retomada do conteúdo. Caso a resposta não tenha nenhuma relação com os temas estudados, é sinal de que aconteceu o famoso "chute" - e é preciso saber se foi falta de entendimento sobre a formulação da pergunta, de compreensão sobre o conteúdo ou de compromisso do aluno com a atividade.


Prova de História

Foto: Dercílio

Alternativas indicativas 
Mesmo as questões de múltipla escolha podem ajudar no diagnóstico do nível de aprendizagem. Se o aluno escolhe uma alternativa com todos os termos errados, significa que não aprendeu. Outras opções, como esta marcada ao lado, podem indicar que ele tem familiaridade com o conteúdo. Contudo, será preciso retomá-lo com a turma. 

Erros marcados 
Os erros de Língua Portuguesa e outros que não modifiquem a resposta devem ser apontados e, sempre que possível, corrigidos. No exemplo, a resposta está correta diante do solicitado, porém há erros de ortografia que devem ser indicados. Vale conversar com o professor de Língua Portuguesa para informá-lo sobre esses equívocos.

Definição de critérios únicos para toda a equipe docente

Durante o encontro de formação, é fundamental que a equipe chegue a um acordo sobre alguns pontos básicos, que devem ser seguidos por todos os professores para que a garotada perceba que há coerência na avaliação feita pela escola. Exemplos:

- Certo, meio certo ou errado? Quando o aluno erra o resultado - principalmente nas provas de Matemática -, mas acerta o raciocínio, deve-se considerar a questão certa, errada ou meio certa?

- Com que cor de caneta corrigir a prova? Vermelha é a cor tradicional para esses casos. Por isso, a escola deve repensar seu uso. "Essa cor carrega uma conotação negativa exatamente por ter sido usada por diversas gerações de docentes apenas para chamar a atenção para os erros. Ela assusta e leva o aluno a uma ansiedade desnecessária", afirma Lea Depresbiteris.

- Os erros devem ser apontados na própria prova? Explicar ao aluno por que ele errou e dar o caminho de como deveria ter desenvolvido a questão é uma parte importante da correção das provas. Contudo, essas anotações devem ser feitas à margem e não sobre a escrita do aluno, para que, posteriormente, a prova seja uma fonte de consulta e estudo para ele.

- Os erros de ortografia devem ser levados em consideração? Os professores de todas as disciplinas precisam estar atentos ao uso da norma culta e os equívocos devem ser apontados na correção das provas, das lições de casa e de qualquer produção escrita. Se o erro na grafia de uma ou outra palavra não interferir na exatidão dos conceitos nem provocar ambiguidade ou imprecisão, os professores podem desconsiderá-los para os critérios de nota. Exceção para a prova de Língua Portuguesa, em que a ortografia é sempre um dos conteúdos analisados.

Consultoria Priscila Monteiro, Formadora do Instituto Avisa Lá, em São Paulo, e selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador nota 10, e Cláudio Bazzoni, assessor da Prefeitura de São Paulo

Sugestão de pauta

Oficina de correção de provas
- Para esse encontro de formação, peça que cada participante leve uma prova elaborada por ele, já respondida por um aluno.
- Inicie a reunião apresentando os pontos ressaltados nesta reportagem e promova um debate em busca de um consenso.
- Em seguida, solicite que cada professor analise a prova que levou. Todos devem ser estimulados a perceber e registrar os seguintes pontos: o aluno demonstrou familiaridade com o conteúdo ao elaborar a resposta? Quais os possíveis motivos para os erros? Há pistas sobre as dificuldades que aquele estudante enfrenta? Está claro quanto o aluno sabe sobre o tema?
- Faça com que eles listem o que depreenderam das respostas dos alunos e expliquem ao grupo como chegaram à conclusão.
- Solicite que os docentes troquem as provas corrigidas e as anotações com um colega para que ele opine sobre a correção feita e a análise dos resultados.
- Discuta os possíveis encaminhamentos para os problemas diagnosticados e de que maneira eles podem ser incluídos no planejamento das aulas seguintes.
- Por último, estabeleça com a equipe qual o padrão a ser seguido nos pontos polêmicos. É importante que os alunos percebam que a escola adota os mesmos critérios nas avaliações de todas as áreas.

Quer saber mais?

CONTATOS
Jussara Hoffmann
Lea Depresbiteris

BIBLIOGRAFIA
Diversificar É Preciso: Instrumentos e Técnicas de Avaliação de Aprendizagem
, Lea Depresbiteris e Marialva Rossi, 200 págs., Ed. Senac São Paulo, tel. (11) 5085-8080, 42 reais
Avaliar para Promover, Jussara Hoffmann, 142 págs. Ed. Mediação, tel. (51) 3330-8105, 37 reais

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