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12 de Abril de 2017
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As boas escolas que o Ideb não vê

Os desafios de quem educa para além das avaliações

Por: Beatriz Vichessi, Karina Padial, Gustavo Heidrich
Escola na capital paulista recebe imigrantes de mais de dez países Crédito: Mariana Pekin

O Índice de Desenvolvimento da Educação (Ideb) completa dez anos em 2017 e é uma das mais importantes políticas de qualidade do ensino no Brasil. Foi a partir dele – e da Prova Brasil, criada em 2005 – que construímos, pela primeira vez, uma forma de medir e acompanhar a aprendizagem em todas as escolas. Ele surge depois de um intenso processo de ampliação no Ensino Fundamental, que fez com que chegássemos a mais de 95% de cobertura e rompêssemos a barreira dos 35 milhões de crianças de 6 a 14 anos na escola. “Quando criamos o índice, o objetivo não era dar uma nota para cada aluno ou escola, mas ter um parâmetro para o governo priorizar os investimentos. O Ideb é um marco porque ele voltou o foco das políticas públicas para a qualidade”, explica a ex-secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, Maria do Pilar Lacerda.

Ao longo da última década, o Ideb induziu diversas políticas e programas públicos, passou a balizar os investimentos do terceiro setor e, dentro das escolas, deu um instrumento concreto para que famílias, professores e gestores pudessem dialogar e agir para melhorar a qualidade. Ele também escancarou o que os resultados de testes internacionais e os altos índices de reprovação, analfabetismo e distorção idade-série atestavam: o nível muito baixo da Educação brasileira.

Mas, com o índice nacional, também surgiram versões municipais e estaduais, gerando sobreposições. A divulgação das notas levou ao ranqueamento e a busca por melhores posições conduziu a práticas de treinamento e ao foco curricular nos descritores de Língua Portuguesa e Matemática da Prova Brasil. “Acabamos criando mecanismos sofisticados de avaliação, mas não de mudança pedagógica na escola”, reconhece Pilar Lacerda.

Inclusão transformou escola gaúcha em referência
Crédito: Marcelo Curia
Autonomia e participação são as prioridades de escola em
Guarulhos Crédito: Mariana Pekin.

Para que essa mudança aconteça, é preciso saber transformar os números das provas em ações. “Na gestão essas ações se materializam na garantia da formação continuada, do número adequado de alunos em sala, na valorização e permanência dos professores e na infraestrutura. Dentro de sala, é priorizar mais os erros do que os acertos. É da reflexão sobre o erro que vem a transformação da prática”, defende Jussara Hoffman, pesquisadora em avaliação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A régua do Ideb, por sua natureza padronizada e de larga escala, também não consegue dar visibilidade para os desafios sociais, econômicos e culturais de cada escola. “É preciso ter metas para nossos melhores alunos, que aprendem menos do que os melhores em outros países, e também para os nossos piores alunos, que são em grande número e muito piores do que os piores em outros países. São diferentes desigualdades”, afirma Francisco Soares, ex-presidente do Inep e um dos maiores especialistas em estatística educacional do país.

Em 2022 se conclui a série histórica proposta quando o Ideb foi criado. A ideia à época era que o Brasil cheguasse lá com nota 6, o nível dos países desenvolvidos. Na última medição, em 2015, atingimos a casa do 5 nos anos iniciais e do 4 nos anos finais. “Precisamos concluir essa série, mas pensar como criaremos mecanismos de avaliação que considerem o impacto da Educação integral, a relação da escola com a comunidade e a cidade, novas metodologias de ensino e as demandas de aprendizagem dos alunos”, acredita Pilar Lacerda.

São essas aprendizagens, hoje invisíveis para o Ideb, que trazemos nos links abaixo. Uma escola de portas abertas para os imigrantes, outra que é referência em inclusão e uma terceira que desenvolve a autonomia dos alunos, todas ainda abaixo das metas do índice. “Precisamos ter sempre em vista que quando dizemos ler, escrever, estamos afirmando: ler não apenas os livros, mas os sinais do mundo, a cultura do tempo. Escrever não apenas nos cadernos ou computadores, e sim no contexto de que participa, intervindo em sua significação. Resolver problemas não só matemáticos, mas no amplo universo das questões que desafiam os seres humanos na construção de sua história e no convívio com os outros”, afirma a filósofa da Educação Terezinha Rios.

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