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4 dicas para o diretor não virar um burocrata

por:
Priscila Arce
Priscila Arce
Foto: Kate Hiscock/Flickr

O diretor é um professor que mudou de função para melhorar a realidade de uma escola junto à equipe e à comunidade. Sim, o diretor é um professor. Ter isso em mente o leva a considerar as dificuldades da gestão do currículo e também os desafios do dia a dia.

São incontáveis os obstáculos da administração escolar que nenhum manual ensina: verbas escassas com regras rígidas de gerenciamento, vida funcional dos docentes, condições precárias de trabalho, relação com a comunidade em contexto de crise e uma lista interminável de afazeres que ele descobre na rotina escolar. E a lista de complexidade não acaba.

Quando ingressa no novo cargo, o diretor não sabe ao certo o que o espera. Nem sempre sua formação inicial ou sua experiência como professor ou gestor o preparam para a função. O concurso público ou a eleição não transmitem necessariamente as situações práticas que ele enfrentará. No início, a mudança demanda muito estudo, paciência e observação para que o educador não tome nem decisões tão amistosas nem impulsivas.

Pensando nisso, separei 4 dicas que vão ajudar tanto os novos diretores como aqueles que estão há muito tempo na caminhada. Vamos lá:

1) Entenda que a burocracia é importante

O primeiro passo para não enlouquecer diante de tanta complexidade é considerar que a burocracia não é um demônio por completo. É difícil, porque o "carimbo" está sempre ali lembrando que existem demandas para responder — e que o diretor vai ser responsabilizado por elas. Para isso, minha dica é: não pense que as tarefas burocráticas consomem o tempo que deveria ser destinado à aprendizagem do estudante e que deveriam ser desempenhadas por outras instâncias fora da escola. Lembre-se que, na verdade, a burocracia ajuda o trabalho, caso seja vista com criticidade. Ela deve estar a serviço do conhecimento dos alunos. Se não estiver, aí sim reveja a importância dessas tarefas e descubra se elas realmente precisam ser realizadas por você.

2) Compartilhe e delegue

O diretor não deve fazer tudo sozinho. É preciso ter humildade para assumir o que não sabe. Ele também não é o melhor entre os professores ou profissionais da equipe nem é necessariamente a melhor pessoa para desempenhar todas as tarefas da escola.

Com isso em mente, é preciso que articule os diferentes sujeitos, compartilhe responsabilidades e estabeleça parcerias. Um bom diretor é aquele que provê meios de ensinar aqueles que não sabem desenvolver alguma tarefa. Sob essa ótica, a escola passa a ser espaço autêntico de aprendizagem de todos os sujeitos que trabalham nela. E os pais também assumem responsabilidades, porque a escola tem uma função social e um papel histórico — quando ela fracassa, o fracasso é coletivo e também social.

Como eu disse, o diretor, evidentemente, sabe muitas coisas, mas não sabe tudo. Em virtude dessa posição estratégica (um professor deslocado para a função de diretor), o projeto educativo não pode ser apenas de sua autoria. Também não pode subjugar uma equipe e uma comunidade às suas vontades ideológicas ou pessoais. O projeto educativo exige autoria de muitos sujeitos e precisa de autonomia e compromisso autêntico com os sucessos e fracassos da instituição.

3) Seja um líder

Outra questão que não podemos deixar passar, e que certamente muda a dinâmica de atuação do diretor, é a liderança. Todos os sujeitos desse projeto educativo precisam legitimá-la. Uma escola tem diretor quando os outros sujeitos o autorizam a ser diretor.

Mas como isso acontece? Espera-se dos outros sujeitos comprometidos com o projeto educativo a mesma postura de humildade que se espera do diretor. Isso evita atropelos, autoritarismo e distorção de cada atuação. Provavelmente, essa mudança de comportamento contribui para amenizar as disputas de poder que fragmentam a equipe e pouco promovem o verdadeiro sentido da escola — por excelência, um local onde todos podem e têm potencial de aprender mais.

4) Olhe para o lado de fora da caixa

Finalmente, diretores: peçam ajuda e passem a estabelecer parceria com pessoas de diferentes áreas. A escola como projeto educativo da sociedade no século XXI precisa de muitas ideias e muitas mãos unidas para conseguir avançar na conquista de sua qualidade. Nós temos que filtrar constantemente a quem direcionamos nossas demandas, dividimos responsabilidades e estabelecemos parcerias.

Só para ilustrar: tem exigências que são do poder público, da Secretaria da Educação, da relação intersecretarias, da subprefeitura local. Outras, em contrapartida, são da comunidade, dos estudantes, dos docentes, dos funcionários da secretaria, da gestão escolar, da vigilância, da limpeza, da equipe de apoio, dos vizinhos do entorno escolar. E ainda podemos contar com os saberes de escritores, urbanistas, estudiosos de diferentes áreas, da universidade pública. São infinitas redes de possibilidade.

Inegavelmente, a escola sempre esbanjará complexidade e exigirá muito trabalho da sociedade. Ou seja, de todos nós. Em suma, é muito difícil não se tornar um burocrata em uma sociedade cada vez mais especializada. No entanto, com a mudança conceitual dessa posição, não é impossível. A escola dos dias de hoje não tem a cara do diretor, e sim a de um projeto de responsabilidade coletiva e social de pessoas engajadas com a qualidade da Educação pública do país.

Para Saber Mais

TRAGTENBERG, Maurício. Educação e Burocracia. Editora UNESP, São Paulo,2012

PARO, Vitor. Diretor de Escola: Educador ou Gerente? Editora CORTEZ, São Paulo, 2015.

Priscila Damasceno Arce é diretora da EMEF Sebastião Francisco O Negro, na zona leste de São Paulo-SP. Estudou em escola pública a vida toda e também foi professora e coordenadora pedagógica. É especialista em alfabetização e mestranda em formação de formadores pela PUC-SP.

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