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08 de Fevereiro de 2018 Imprimir
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O que o grafite pode ensinar a uma escola

Por: Priscila Arce
Grafite em sala de aula que é parte do projeto de acolhimento da EMEF Sebastião Francisco O Negro em São Paulo   Foto: Arquivo pessoal

A convite da nossa escola, o artista Alexandre Truff, de São Bernardo do Campo, reuniu seis amigos também artistas que participam do Projeto de arte urbana Todokanto – Nem Viptk, Frasão Feik, Nick Alive, Xguix, Galo e Alexandre Anjo – para deixar uma contribuição nas paredes das salas de aula. Eles trabalham com grafite, arte que nasceu nas ruas e ganhou as galerias de arte pelo mundo. A iniciativa não apenas rendeu uma mega oportunidade para a galera do fundão imaginar, fruir e criar durante as aulas, mas também envolveu adultos, comunidade e alcançou todas as pessoas que visitam a escola. De lugar de aprendizado, como muitos enxergam a escola, nos tornamos também espaço público de arte. Cada sala de aula é agora um universo completamente diferente, o que trouxe uma experiência transformadora para a escola inteira.

Antes de contar um pouco sobre o processo, gostaria de recordar que na educação, tudo o que é bom deve se multiplicar. Essa ideia já havia rolado na Escola Estadual Benedita de Oliveira Ale, em Guarulhos, e em outras unidades da cidade de São Paulo. Em geral, a arte dos grafiteiros pode ser vista nos muros e fachadas e, ao popularizar essa linguagem em nossas salas, ela se tornou mais acessível.

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Quando saiu da escola pública, Alexandre Truff enveredou pelas artes plásticas. Ele me contou que a maior parte dos grafiteiros começam na arte do grafite ainda na escola, pelo grande espaço de criação proporcionado pelas carteiras, portas dos banheiros e muros – espaços tradicionalmente proibidos pelos adultos. Raramente, os estudantes são convidados a intervir nas paredes e na vida da escola ou estimulados a compreender, através de referências concretas, que esses espaços podem ser diferentes. Às vezes, deixamos de questionar a organização e a estética dos espaços da escola porque eles “sempre foram assim” e por serem historicamente organizados dessa forma, dificilmente poderiam ser virados do avesso.

Priscila Arce e alunos da EMEF Sebastião Francisco O Negro diante do grafite pintado em sala de aula   Foto: Arquivo pessoal

Projeto da EMEF Sebastião Francisco O Negro convidou grafiteiros como Alexandre Truff para pintar as salas de aula como parte da proposta de acolhimento    Foto: Arquivo pessoal

Ao construir o projeto político-pedagógico, com frequência nos esquecemos de que a forma como os tempos e espaços se desenham também educam e afetam as pessoas que nele coexistem. Sabemos que aprendemos com a organização da escola e o contrário também acontece. Passamos uma extensa jornada de nossas vidas nesses espaços extremamente escolarizados sem questionarmos o porquê precisam de grades, cadeados pesados, portões de ferro, sinalização, paredes com cores neutras e tantas outras regulações que só desgastam a relação pedagógica.  

Compreendemos que a escola não cria sozinha suas regras e que para romper com a tradição, nós precisamos de uma sociedade comprometida com a qualidade do ensino de uma geração extremamente conectada.  

Trazer o grafite para a escola nos ensinou muitas coisas, entre elas que é preciso “na educação mais fazer do que falar”, princípio que Alexandre Truff segue para resolver questões sociais de suma importância para a cidade. Precisamos compreender nosso bairro, nossa cidade, resolver nossas demandas com soluções mais sustentáveis e coletivas.  

Outra lição importante foi que as escolas precisam de autonomia pedagógica e administrativa para realizar escolhas e mudanças, em especial para convidar outros atores para a construção do espaço de interesse público. E convidar não é apenas dizer “Cola aí’, mas criar condições concretas para que outros sujeitos possam partilhar seus saberes e conhecimentos.

Grafite em sala de aula que é parte do projeto de acolhimento da EMEF Sebastião Francisco O Negro   Foto: Arquivo pessoal

Trabalho em grafite na sala de aula da EMEF Sebastião Francisco O Negro   Foto: Arquivo pessoal

Grafite do artista Feik em sala de aula da EMEF Sebastião Francisco O Negro, em São Paulo. Ao final do projeto de acolhimento, Feik doou uma tela que hoje está no refeitório da escola   Foto: Arquivo pessoal

Outra questão diz respeito a identidade e pertencimento. O grafite aproxima gerações – a criança, o jovem e o adulto – e através dos espaços em que a arte transita, nós tecemos diferentes comportamentos. Às vezes, não compreendemos de imediato, mas na escola temos a possibilidade de adentrar debates, reflexões e construir muitas aprendizagens. Deixamos de apreciar apenas com as palavras – “legal” e “interessante” – e mergulhamos em tudo o que podemos ver, sentir e aprender. Assim, nós avançamos para uma observação profundamente poética e estética da intervenção.

Não estou falando em didatizar o grafite, mas explorá-lo em plenitude, através da interlocução. O espaço se torna mais próximo da criança e do jovem, ultrapassando a frieza dos prédios escolares.

A ação proposta a Alexandre e seus amigos ocorreu uma semana antes do início das aulas com a intenção de gerar surpresa para os professores, estudantes e comunidade. A decisão da equipe gestora pautou-se na ideia de realizar um acolhimento diferenciado para início do ano letivo. A ideia não era de um projeto belezura, mas uma proposta que afetasse pessoas, sentimentos, saberes, sensações e, fundamentalmente, o conceito daquilo que seria a sala de aula do século XXI.  

Em intensa reflexão juntamente com Alexandre, que abraçou o projeto de imediato, consideramos que precisávamos intervir para que as salas de aulas fossem cada vez mais livres, criativas e jovens, totalmente o avesso de uma sala prisioneira das inteligências e personalidades. Viramos ao avesso a sala de aula, decorrente de intensa reflexão a respeito da proposta curricular da escola, que envolveu toda a equipe escolar desde o ano anterior. Partimos da arte de sujeitos engajados e com compromisso social com a escola e concluímos que não poderíamos ter tido uma escolha mais acertada e um começo melhor de ano. Como diz o heterônimo de Fernando Pessoa, Ricardo Reis:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és.
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda.
Brilha, porque alta vive”.  

Nada melhor que os jovens para expressarem emoções e sentimentos a respeito, por isso nesse relato emendaremos as palavras de Vitória, por justamente descrever essa interlocução, expansão e interação com a proposta. O diferencial está aqui: não temos controle, não sabemos quem vai afetar ou como, mas sabemos que é um caminho sem volta e sem dúvida “brilha, porque alta vive”.

 

"Bom eu nunca me dei bem com arte, no geral. Já tentei dançar, cantar, pintar e desenhar. Mas adivinha? Não deu certo! Acabei desistindo, decidi apenas ser uma espectadora. Quando era pequena, minha mãe e meu pai me mostraram desenho dos grandes. Como a incrível obra de Leonardo da Vinci, a incrível Monalisa. Eu admiro demais. Quando a vejo – o que acontece frequentemente – eu paro e observo os grandes detalhes, que para outras pessoas não são nada. 

O que vocês fizeram aqui na nossa escola foi algo fabuloso. Só me fez me tornar mais amante da arte do que já sou. Eu agradeço a cada um de vocês 7. 

Vou admitir não entendi muito. Creio que para o grafiteiro teve um significado bem diferente que o meu. Minha professora supôs que o elefante na cabeça da moça é como se fosse a memória de longo prazo. Deve ser algo do tipo, não sei. 

Mas é isso, sou uma aluna da EMEF Sebastião Francisco, o Negro e agradeço do fundo do coração o que todos fizeram na minha escola. São grandes artistas. Obrigada."

Priscila Damasceno Arce é diretora da EMEF Sebastião Francisco O Negro, na zona leste de São Paulo-SP. Estudou em escola pública a vida toda e também foi professora e coordenadora pedagógica. É especialista em alfabetização e mestranda em formação de formadores pela PUC-SP.

Vários momentos do projeto de acolhimento da EMEF Sebastião Francisco O Negro em São Paulo, que contou com um grupo de grafite    Foto: Arquivo pessoal

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