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28 de Fevereiro de 2018
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11 coisas que ninguém te conta antes de assumir a direção de uma escola

Conversamos com três gestores escolares e eles compartilharam as maiores surpresas e choques de realidade que tiveram no dia a dia da profissão

Por: Laís Semis
Para quem é recem-chegado na direção, a rotina do cargo pode parecer um pouco assustadora. Crédito: Getty Images

Lúcia Cortez de Barros Santos, diretora da EM Waldir Garcia, em Manaus (AM), assumiu sua primeira gestão à frente de um escola em 1994. Depois de 24 anos, ela ainda se lembra das surpresas que teve ao ingressar na carreira. “Foram muitas”, assegura. Ao longo dessa trajetória e das experiências que teve, também foi ressignificando o que pensava sobre gestão escolar e o próprio modelo de atuação. “Vi, por exemplo, que era muito centralizadora. Não imaginava que seria possível uma relação mais próxima de trocas com o entorno da escola ou mesmo adotar uma gestão democrática. Mas nas experiências que tive e no contato com o trabalho de outros diretores, eu fui mudando minha visão, o que me fez crescer muito profissionalmente”, diz. E apesar de todos os desafios e da rotina atarefada, ela garante que é realizada no que faz.

Para quem chegou há pouco tempo no cargo, como é o caso de Priscila Damasceno Arce, da EMEF Sebastião Francisco O Negro, na zona leste de São Paulo (SP), e de Patrícia Francisco, do Centro Educacional Jardim Araruama, em Cotia (SP), essa rotina pode parecer um pouco assustadora. Esse é o segundo ano delas na direção. Frente ao número de demandas, elas aconselham ter paciência e tranquilidade para se adaptar às novas funções. “A dica é começar devagar, sem ir com sede ao pote. Leia muito, busque formação para ser um bom gestor e conte com o apoio da equipe. O diretor não faz a escola sozinho”, diz Patrícia. Abaixo, as três diretoras revisitaram suas memórias para revelar o que ninguém contou para elas sobre a profissão antes de assumirem o cargo.

1. Tudo o que você achava que sabia sobre o cargo, não era bem assim.



Você pode estar na carreira docente há muito tempo e acreditar que conhece o trabalho desenvolvido pelo colega diretor que está lá todos os dias ao seu lado. Possivelmente já leu materiais a respeito, teve referências dele na faculdade, conhece as atribuições listadas nos editais de concursos públicos. “Mas a bagagem da faculdade é teórica e ela é muito distante da realidade que se vivencia na prática”, diz Lúcia. “Ser diretora também me deu um outro olhar sobre esse cargo. Como professora, já critiquei diretores muitas vezes. Se um dia eu voltar para sala de aula, os diretores terão meu total apoio e respeito. Nem tudo é tão simples quanto os funcionários da escola pensam”, equilibra Patrícia. Lúcia nunca imaginou que a sua rotina seria o que ela é hoje. “Achava que ia cumprir o expediente, ter a melhor sala e dar ordens. A verdade é que eu tenho uma mesa em que nem consigo sentar pelo tanto de tarefas que demandam de mim!”.

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2. Dificilmente você ficará dentro da sua carga horária na escola todos os dias. 

“Depois que assumi o cargo, nunca mais consegui fazer horários de almoço e café direito”, diz Patrícia. Por mais que haja planejamento para a semana ou o dia, imprevistos acontecem com frequência - com alunos, responsáveis, professores, patrimônio, convocações externas… “Cada dia é diferente do outro. Para quem gosta de emoção, é um prato cheio!”, diz Priscila. As demandas têm prazo de entrega e, para dar conta de tudo, há um risco de desequilíbrio entre trabalho e vida pessoal. “Tenho que me policiar sobre as horas de trabalho. Sempre tendemos a acreditar que só vai funcionar se o diretor estiver presente. Mas a escola precisa ter uma rotina que funcione sem ele”, pondera Lúcia. Além disso, as diretoras destacam que o tempo de formação continuada, que precisaria ser feito dentro da escola, acaba ficando para os horários livres fora da instituição.

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3. A responsabilidade sobre o patrimônio escolar é sua. E vão te chamar tarde da noite e nos finais de semana se acontecer alguma coisa.

Alguém invadiu a escola, o ar condicionado quebrou, a porta da sala precisa ser trocada, o muro caiu. “Do dia para a noite precisei entender de financeiro, arquitetura e engenharia”, relembra Lúcia. “Quando assumi, não sabia que tinha de entender sobre essa parte de estrutura e eram coisas que eu nem sabia fazer”, fala Lúcia, que assumiu a primeira gestão em 1994, há 24 anos. “Nessas horas, você quer chamar o síndico, só que o síndico é você”, compara Priscila. “A questão do patrimônio só me chocou quando fui chamada às 23h para checar o muro da escola que tinha caído e tive de ir na delegacia fazer um boletim de ocorrência”, relembra.

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4. A prestação de contas exige muita responsabilidade, é complexa e cada verba funciona de um jeito diferente.


Em tradução livre: Hmm, querido, nós estamos com um sério problema aqui.

Nem nos cursos de Pedagogia, nem nas licenciaturas é comum ensinar sobre o controle financeiro de uma escola. Muito menos com a detalhação necessária para assumir essas demandas. “Cada verba tem uma regra específica, tem uma forma de aplicar e a prestação de contas é algo muito sério porque envolve o Tribunal de Contas e nada de errado pode passar”, diz Priscila. “Existem muitos manuais para auxiliar nesse trabalho, mas é preciso muita leitura antes de lidar com esses gastos. A Associação de Pais e Mestres (APM) auxilia no gerenciamento dos recursos financeiros, mas nem sempre os integrantes conhecem esses manuais, então precisamos apresentar as regras”, explica. A demanda exige não só conhecimentos administrativos, mas também de informática. “Foi aí que eu descobri que era péssima com as planilhas do Excel”, confessa Patrícia. “Às vezes, a secretaria nos envia uma planilha protegida e para mexer nela só perguntando, pesquisando e testando”.

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5. A relação com a equipe muda (muito). Você deixa de participar das conversas e passa a “ficar sabendo” da notícia por terceiros.

No início, parece que nada vai mudar na relação com os seus colegas de trabalho. Afinal, vocês deram aula tanto tempo juntos, compartilharam tantas dores e alegrias da profissão naquela escola, não é mesmo? “A mudança de relação é o primeiro choque que um diretor novo toma”, diz Priscila. Nos sete anos em que foi coordenadora, ela conseguiu manter uma relação mais próxima e amistosa com a equipe, em que os professores contavam mais com ela. Já na direção, isso mudou completamente. “Por mais interessante que você seja e por mais experiências que tenha para compartilhar, você sempre será a diretora”, afirma. “A equipe passa a ter ver como chefe e a relação mais horizontal, em que as pessoas chegam para te contar as coisas, deixa de acontecer e você só ‘fica sabendo’ por alguma conversa de corredor”, relata Lúcia. A diretora experiente acredita que esse distanciamento ocorre porque o gestor deixa de ser visto como um colega de trabalho e passa a ser uma “autoridade que dá ordens e aplica cobranças”. Para Patrícia, a mudança de visão sobre os problemas da escola também colabora para esse distanciamento. “Querendo ou não, você passa a rever conceitos e opiniões que tinha em sala de aula. E, às vezes, a equipe te cobra algumas posições – o famoso ‘agora que você é diretora, você fala isso’ –, mas como gestora você deixa de olhar só para sua necessidade e passa a olhar a do coletivo”, explica Patrícia.

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6. As relações com pais e alunos também não serão mais as mesmas.


Quando Lúcia estava em sala de aula, seus alunos estavam entre o 6º e o 9º ano. As conversas e a forma de lidar com as turmas eram compatíveis com a faixa etária dos alunos. Ao mudar de função, passou a ser responsável por uma escola que tinha da Educação Infantil à Educação de Jovens e Adultos (EJA). “O universo se amplia muito. São idades e necessidades muito diferentes para cada etapa”, aponta. Além da quantidade, assim como acontece com os professores, a relação com alunos e responsáveis também muda. “No início, há um distanciamento, eles te olham com medo. Ao ganhar gradativamente a confiança deles, isso muda”, revela Patrícia. Em relação ao atendimento dado aos pais, ela se surpreendeu com o respeito que o cargo de diretor impõe a muita gente. “Quando você fala que é o diretor, a pessoa te trata com mais educação, chama de senhora. Eu deixei de ser a Patrícia para ser a Dona Patrícia”. E isso também impacta no imaginário das pessoas. “Certa vez uma mãe estava procurando a diretora e me perguntou onde poderia encontrá-la. Quando disse que era eu, ela me olhou um pouco incrédula. Eu estava de legging e tênis. Talvez ela pensasse que as diretoras não deveriam se vestir assim, mesmo havendo um evento esportivo na escola”, lembra.

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7. Ser diretor não é só administrar. Existem demandas pedagógicas atreladas ao cargo que vão exigir sua participação.



“Eu sempre via o diretor muito longe dessa questão pedagógica. Achei que ele ficasse muito mais no burocrático e administrativo”, relembra Patrícia. Como essas demandas tomam bastante tempo, alguns diretores acabam engolidos pela rotina e não conseguem acompanhar o pedagógico. Mas cabe a ele ser parceiro do coordenador na gestão da aprendizagem dos alunos, acompanhar a qualidade do ensino e criar oportunidades de capacitação da equipe. “A surpresa dessa demanda é muitas vezes para a equipe: ‘Mas agora o diretor vai acompanhar isso também?’. Causava um mal estar entre eles porque muitos o veem como um fiscalizador, que está ali para cobrar resultado e não construir esse percurso junto com eles”, considera a diretora Priscila. Para Lúcia, que tem formação em Letras, cuidar do pedagógico foi também um desafio. “Como não sou pedagoga, precisei correr muito atrás de informações, leituras e formações para estar bem inteirada ao lado dos pedagogos da escola e dos professores”, conta a diretora manauara.

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8. A comunidade externa também precisa da sua atenção – e não vai ser pouca coisa.

A aprendizagem dos estudantes é o objetivo primordial da escola e o que está para fora dela não diz respeito à gestão escolar, certo? Até poderia ser, se esse entorno não influenciasse essa relação ou se a escola não fizesse parte também dessa comunidade. “Às vezes, dá mais trabalho educar o entorno do que os estudantes”, afirma Priscila. Em sua escola, a vizinhança joga lixo na calçada do prédio – incluindo o portão de entrada. “Temos um trabalho de conscientização. Sabemos que é um problema macro, que atinge toda a cidade, mas na porta da escola, isso nos atinge. Jamais imaginei que teria de lidar com essa demanda”. As diferentes relações estabelecidas com o entorno da escola também podem causar um choque. Na primeira escola em que Lúcia trabalhou, em Manaus, a instituição era fechada para a comunidade. Na seguinte, o portão estava sempre aberto aos vizinhos e a relação era de muita troca. “Tive que me adequar, aprender a conviver e ressignificar também. Vi que aquele modelo, com participação, era o ideal”.

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9. Os desafios de remuneração, demandas cotidianas, apoio externo e formação são tão grandes quanto os do professor.

O número de demandas que um diretor assume ao tomar posse é grande. Nem sempre existe apoio ou formação – interna e externa – para lidar com os problemas, situações e pessoas. Além das tarefas diárias, a posição exige um constante planejamento. Para Priscila, um dos principais gargalos é a preparação para assumir o cargo. “Se pensa muito pouco na profissionalização do diretor. Não temos formação clara para lidar com as atribuições do cargo”, diz. Outro ponto é a questão salarial. “Não é tão bom quanto eu imaginava! A verdade é que o salário não acompanha o tamanho do aumento das responsabilidades”,  afirma Patrícia.

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10. Ser diretor é um ato solitário. Diferentemente do professor, não existe um parceiro que compartilhe as mesmas demandas e problemas.



Quando você está na sala de aula, há muitos colegas compartilhando os mesmos desafios que você. Quando assume a direção, é só você. O sentimento é de solidão, isolamento e até angústia. “Por mais que você tenha um grupo de colegas diretores de outras escolas, no dia a dia é diferente. Por mais que possamos pedir opinião para a equipe, não é o mesmo que vivenciar na pele os problemas. Às vezes, você tem que fazer escolhas difíceis, trazer apontamentos ou orientações para um funcionário”, relata Patrícia. Para Lúcia, é como se a relação fosse um cabo-de-guerra. “De um lado tem uma escola toda puxando a corda. Do outro, só você. A gestão democrática ajuda a tirar um pouco do peso dessa relação desproporcional, mas ainda assim somos muito cobrados por todos os atores e situações da escola”, diz.

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11. São tantas demandas burocráticas que você perde a conta de quantos documentos assina por dia.

Para quem não tem intimidade com a prática de administração, ser diretor traz a impressão de se resumir a delegar tarefas para a equipe, acompanhar o andamento das demandas, corrigir o que está errado e consertar o que não está funcionando – enfim, organizar tudo e todos. A verdade é que além dessas ocupações, a papelada domina a mesa, gavetas e armários da sala do diretor. Orçamento, projetos, solicitações, autorizações, prestação de contas, relação de bens. Toda essa burocracia das documentações é essencial para o funcionamento da escola. Não há como escapar delas. Sem contar que muitas tarefas contam com prazos inegociáveis, como a prestação de contas dos programas governamentais. “Eu não saberia enumerar em quantos documentos coloco meu nome e assino por dia”, confessa Priscila.

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E você, diretor? Qual foi o choque de realidade que quase o derrubou da cadeira? TEve outras surpresas ao ingressar na carreira? Conte para GESTÃO ESCOLAR e compartilhe conosco nos comentários!

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