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07 de Março de 2018 Imprimir
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Os pais não vieram buscar o aluno. E agora?

Saiba quais são as responsabilidades da escola quando pais e responsáveis se atrasam demais para pegar a criança

Por: Paula Peres
Além de prejudicar a rotina da escola, as próprias crianças ficam muito tristes ao perceber que seus pais não chegaram. Crédito: Getty Images

Cena 1: O sinal da entrada toca às 7h da manhã, todos os alunos seguem para a sala de aula. Há um combinado da escola com os pais, registrado no regimento escolar, de tolerar até 15 minutos de atraso para receber os alunos. Porém, cinco minutos depois desse “tempinho extra” ter se encerrado, aparece um pai contando uma história comprida e querendo que seu filho entre de qualquer jeito.

Cena 2: No horário de saída, os alunos vão deixando a escola aos poucos, sozinhos, acompanhados dos pais ou pegam o transporte escolar. No canto do pátio, um aluno cuja mãe sempre vem pegá-lo vai ficando de lado, ansioso, esperando alguém chegar. Esquecido. Meia hora, uma, duas horas se passam. Ninguém aparece.

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Essas e outras cenas protagonizadas por pais de alunos são comuns nas escolas brasileiras e capazes de tirar a paciência de muitos gestores. Mesmo que haja uma boa vontade da equipe em ficar com aquela criança que não está em sala de aula, a rotina escolar fica prejudicada.

Como resolver essa situação? O que cabe à escola fazer nos dois casos? De quem é a responsabilidade por aquelas crianças? “Não existe uma lei institucionalizada, e isso dificulta as coisas. O que é possível fazer é um combinado, que pode ser da escola ou de toda a rede, sobre horários de entrada, saída e tolerância”, explica Amaral Barbosa, técnico da Secretaria de Educação de Quixeramobim, no Ceará, e ex-diretor escolar. Regras muito rígidas podem até funcionar em um primeiro momento, mas acabam desgastando a relação com os pais. Veja, a seguir, o que gestores e especialistas aconselham em cada caso:

1) Posso aceitar um aluno que chega muito atrasado?

Tudo depende, em primeiro lugar, dos combinados da escola com as famílias. Orientações sobre atrasos devem constar no regimento escolar, para que haja um documento que dê suporte às decisões do diretor.

Em situações excepcionais, como emergências, enchentes, greves no transporte, ou casos em que a família liga avisando que vai atrasar cinco minutos, é comum que haja mais tolerância por parte da escola. “Se são atrasos frequentes, deve ser feita uma reunião com esses responsáveis para explicar que o atraso bagunça a rotina da sala e prejudica a criança, que está perdendo tempo de aula”, explica Maura Barbosa, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa CEDAC. A faixa etária do aluno também é um aspecto a ser considerado. Uma criança da Educação Infantil tem uma rotina mais flexível do que alunos do Ensino Fundamental 2, por exemplo, já que as a grade de aulas é mais estruturada.

Após a reunião, é importante que ela seja registrada e assinada pelos pais. Celio Muller, advogado especialista em direito educacional, orienta que seja feito o registro para constar na escola. “A responsabilidade pelo transporte da criança não é da escola. Logo, analisando friamente, o diretor pode, sim, recusar a entrada do aluno que é constantemente prejudicado pelos pais, se isso estiver previsto no regimento escolar e depois de serem feitos todos os passos de provocar os pais a entrar na linha”, diz.

Obviamente, a decisão de não aceitar a entrada do aluno deve ser tomada somente quando todas as medidas anteriores não surtiram efeito. “Não recomendo recusar a entrada do aluno que chega atrasado pela primeira vez. Mas pode haver um acordo para que ele fique esperando até a segunda aula, por exemplo”, sugere Célio. “Se você o mandar de volta para casa, quem vai ficar com essa criança? É necessário pensar em sua integridade”, ressalva Maura.

Há redes, porém, que seguem orientações específicas. É o caso de Belo Horizonte, por exemplo, que não recusa crianças que chegam atrasadas.

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2) O que eu faço com uma criança cujos pais vêm buscá-la muito tarde?

A segunda situação é mais complexa porque envolve uma série de variáveis. O ponto que deve liderar a decisão é o bom senso. Amaral conta que, em seus 15 anos de experiência como diretor, já teve que levar alunos para casa por conta própria, pois os pais esqueceram de ir buscá-los. “Já aconteceu do pai achar que a mãe tinha ido buscar, a mãe achar que o filho está com o pai, e a criança estar na verdade na escola”, lembra.

Se os pais ligam avisando que ficaram presos no trânsito ou no trabalho, é esperado que a escola entenda o lado deles. Mas há, também, os atrasos recorrentes, de 20 minutos, meia hora. Em um primeiro momento, o diretor deve entrar em contato com os responsáveis para perguntar se algo aconteceu e como eles pretendem buscar o aluno.

Resolvida a emergência, vale marcar uma conversa com a família, relembrar os combinados previstos no regimento, explicar que nem sempre há alguém da equipe escolar disponível para acompanhar a criança e esperá-los chegar. “A escola precisa de um momento para se reorganizar para o turno ou o dia seguinte. Sem contar que a própria criança se sente abandonada, quando os atrasos são muito longos”, lembra Maura. Célio concorda: “A escola não tem como abandonar o aluno na rua, mas ao ficar com a criança, está assumindo uma responsabilidade que não é dela. A prestação de serviço se encerra ao final do expediente escolar”, ressalta.

Casos extremos – de abandono recorrente ou negligência por parte dos pais – devem ser encaminhados ao Conselho Tutelar. “Se a família não entra em contato, não fala nada e a criança é frequentemente esquecida, nós acionamos o Conselho Tutelar. Ou o Conselho busca a criança, ou a escola leva até eles”, explica Charles Rodrigues Pereira, diretor da Gerência de Educação da rede municipal de Belo Horizonte.

O combinado não sai caro

Essas e outras situações inimagináveis, como pais que querem buscar os filhos antes do final das aulas, fazem parte da rotina da escola. Na dúvida, converse com os pais para explicar a importância em manter a rotina da escola e como essa parceria precisa funcionar em prol da aprendizagem dos alunos. Você também pode levar o tema para debate em espaços como o conselho escolar, reuniões de pais e verificar com a Secretaria de Educação qual é a orientação para cada caso. “A autoridade escolar é o supervisor de ensino. Ele pode ajudar os gestores a tomarem as decisões mais difíceis”, afirma Celio Muller.

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