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13 de Setembro de 2018
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Como uma diretora abandonou o autoritarismo e abraçou a colaboração

Lúcia Cristina Cortez melhorou os índices de sua escola e a interação entre alunos, pais e funcionários

Por: Lúcia Cristina Cortez
Sala de aula da EM Waldir Garcia, em Manaus Foto: Karla Vieira/Secom

Comecei minha carreira como uma professora e, mais tarde, continuei como uma gestora “tradicional”. Quando eu falava, todos obedeciam e tudo era resolvido na imposição. Mas, quando os resultados de avaliações chegaram na escola onde eu trabalhava, ficou claro que este modelo não dava certo: alta rotatividade de funcionários e evasão escolar. Foi quando percebi que a escola era marcada pelo medo e não pelo respeito. E então, decidi mudar.

Para contar esta história de mudança, é preciso voltar ao início. Conclui minha formação superior em Licenciatura no curso de Letras na Universidade Federal do Amazonas – UFAM no ano de 1995. Cinco anos depois, fiz pós-graduação em Gestão Escolar. Naquela época o currículo tinha uma abrangência doutrinária, conteudista e formal. Em que o professor era o centro das atenções, o único detentor do conhecimento. Neste teatro, cabia aos alunos o papel de ouvinte na plateia, um mero expectador da aprendizagem.

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Ao ingressar no magistério na iniciativa pública e privada, continuei reproduzindo este modelo tradicional, a qual fui aluna fiel e dedicada. Passei a ser uma profissional da educação que primava pela disciplina. Os alunos tinham que andar em fila, calados, eles só ouviam. O silêncio era primordial para uma boa convivência e aprendizagem. Era tida como excelente professora, pois tinha total domínio das turmas. Era muito rígida e ditadora. Colocava ordem nas turmas, todos me obedeciam. Era temida na escola. Acreditava que era respeito, mas hoje sei que era medo.

A promoção

Em 1994, ao fazer tanto “sucesso no ambiente escolar”, fui promovida a gestora. Acreditavam que tinha o perfil perfeito para exercer tal função. No novo papel, continuei mantendo uma relação autoritária com os discentes, docentes, pais e demais envolvidos no processo educativo. Agora com mais rigor, pois detinha o poder. Atuava como uma diretora centralizadora e ditadora. Eu falava e todos tinham que obedecer. Ninguém podia discordar do meu pensamento. Não ouvia a opinião de ninguém. Primava pela ordem, disciplina e hierarquia. Era uma organização no estilo militar. Fazia a entrada dos alunos enfileirados, cantava o Hino Nacional, fazia oração e todos seguiam para suas salas, guiados pelos seus respectivos professores.

Neste modelo arcaico de gestão, nossos resultados eram péssimos. Havia uma grande insatisfação por parte dos funcionários, o que resultava numa alta rotatividade entre eles, e elevados índices de abandono escolar, chegando a evasão de 45 alunos por ano em 2005. E no corrente ano, baixos índices de Desempenho Escolar em avaliações externas, assim no primeiro IDEB divulgado, a escola recebeu a nota de 3.9, caindo progressivamente para 3.7 e 3.5, nos anos posteriores.

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Após refletir sobre estes resultados pífios e identificar os reais problemas escolares, como evasão escolar e a cultura da reprovação, reconheci que tinha que mudar minha postura e minha conduta profissional. Não dava mais para continuar com a mesma prática pedagógica adquirida nos bancos escolares no passado. Tudo que vivenciei na escola, não pertencia a esta nova geração. Tinha que fazer diferente, tornar a escola atrativa e alegre. Era necessário aprender a aprender. Aprender a ouvir quem estava envolvido no processo. Aprender a fazer algo novo e interessante. Reinventar processos metodológicos, os quais atendessem às reais necessidades destes estudantes que hoje estão matriculados. Comecei a engatinhar em busca de mudança por uma escola nova e inovadora.

Não foi e não é fácil mudar. O tradicional é cômodo, nos deixa numa zona de conforto, mas tinha que ser corajosa e tomar a decisão de ousar e enfrentar novos desafios. É um processo doloroso, que traz muita angústia, conflitos internos e externos. Ouvir críticas e ter a clareza que não é pessoal, mas profissional e que este processo de escuta, democrático e participativo é o caminho que temos que percorrer para buscarmos a escola ideal que queremos e sonhamos.

Novo aprendizado

Portanto tive que mudar, voltar a estudar, abrir a escola e buscar parcerias dentro e fora do ambiente escolar. Comecei a assistir documentários, vídeos, que traziam experiências de escolas inovadoras, que me inspiraram para inovar, principalmente o Projeto Âncora na cidade de Cotia, o qual me encantou e me fez sonhar com uma escola diferente.

Após várias leituras e pesquisas, decidi ir para São Paulo e conhecer escolas com práticas pedagógicas inovadoras. Quando falei para os demais funcionários, foi contagiante, todos queriam ir comigo. Inclusive de outras escolas de Manaus. Formamos um grupo de 22 pessoas, cada um comprou sua passagem e pagamos nossas hospedagens. Nas férias do meio do ano, realizamos um turismo pedagógico por São Paulo e Rio de Janeiro para conhecer estas escolas. Fomos a Campos Sales, Amorim Lima, Âncora, Viver, Gabriel Prestes, Nelson Mandela e no Rio de Janeiro, conhecemos a Escola do Sesc em Niterói.

Recebemos o convite para iniciarmos (observe que o verbo já foi conjugado na primeira pessoa do plural) a desafiadora experiência de transformar a realidade escolar, sendo a primeira escola da rede municipal com a oferta de Educação Integral em tempo integral. (Até então, desconhecia a diferença entre tempo integral e educação integral) A escola passou a adotar um novo modelo metodológico motivado por um movimento da sociedade civil engajado na luta por uma educação pública de qualidade (CEFA –COLETIVO ESCOLA FAMÍLIA AMAZONAS) e pela inspiração da Escola da Ponte, em San Tirso, em Portugal, na qual todos da comunidade se envolvem e assumem responsabilidades na sua construção.

A partir daí, mudamos a rotina da escola. Acabaram-se as filas, a hora cívica, o toque da campainha estilo fábrica, os gritos e a disciplina formal. Trocamos o mobiliário, extinguimos as carteiras e as substituímos por mesas redondas. Os alunos entram com música e se dirigem sozinhos para suas salas ou qualquer outro lugar livremente. Eles não são mais conduzidos pela mão por um professor.

Assim, entendemos o papel da escola na formação cidadã dos alunos e na busca de evidenciar a capacidade das crianças em interagir e modificar a sociedade em que vivem. Nossa intenção foi promover o protagonismo das crianças na escola, dando a elas o direito de aprendizagem com a implantação da proposta a partir da gestão democrática e participativa, onde todos da comunidade escolar exercem a participação igualitária entre estudantes, professores, funcionários e pais.

Mandala curricular

O maior desafio diante da nova proposta de trabalho foi o significativo aumento de procura da escola para matrícula de alunos especiais e estrangeiros no ensino regular. Tínhamos que desenvolver as múltiplas interações com grupos heterogêneos em todos os níveis de aprendizagem. Respeitando a diversidade étnico-racial, de gênero, sexualidade, necessidades especiais, social e territorial. Como acolher, incluir e garantir o direito de aprendizagem a todos matriculados, inclusive alguns sem falar a nossa língua, sem deixar nenhum aluno para trás? Daí surgiram as dúvidas, inseguranças e principalmente a necessidade de trabalhar a inclusão de fato e de direito em nossa escola de forma coletiva e com a participação efetiva da família e da comunidade externa.

Frente ao desafio posto, observamos a necessidade de envolvermos a família, funcionários, alunos e comunidade para desenvolvermos uma gestão participativa. Tínhamos que compartilhar as responsabilidades por uma educação inclusiva e de qualidade.  A partir daí, passamos a discutir os problemas internos, buscando sugestões e realizando um planejamento coletivo. Tínhamos que reescrever nosso projeto político pedagógico e proposta pedagógica. Inclusive nosso currículo. Daí surgiu nossa mandala curricular.

Iniciamos a reelaboração do nosso projeto político pedagógico, onde todos os envolvidos no processo educativo, poderiam participar, opinar e propor novas ações, que repensem na inclusão de crianças com necessidades especiais e estrangeiras.

Este novo PPP teve como objetivo geral construir coletivamente espaço de diálogo, compreensão e aprofundamento dos princípios da educação integral, gestão democrática e participativa que respeita a individualidade e a diversidade com base em estudos, discussões e relatos, buscando a convivência com autonomia e do protagonismo de todos os participantes do processo.

Nosso PPP passou a fundamentar-se na perspectiva da Educação Integral que considera currículo, toda atividade vivenciada e permanentemente construída no dia a dia da escola, tendo a participação ativa de todos os envolvidos no processo e pela possibilidade de troca de experiências, identificação de novas identidades, espaço de ressignificações e de conhecimentos por questionamentos.

A diretora Lúcia Cristina Cortez

Queríamos fazer diferente, portanto, nossa proposta caminhou, justamente, para a inclusão e participação da família na escola. Vislumbrando novos horizontes com práticas de gestão participativa e inclusiva.

Assim, abrimos espaços para decisões coletivas, criamos as assembleias. Elas são realizadas semanalmente, às quintas-feiras, com todos os alunos da escola, pais e funcionários. A pauta é sugerida por eles e coletivamente. Em seguida a escola se reúne para abordar os temas relacionados, discutir possíveis soluções e votar as propostas sugeridas. O que é votado deve ser colocado em prática e avaliado. Todos os participantes têm direito a voz e voto.

Passamos a utilizar os smartphones, redes sociais e aplicativos móveis para melhorar nossa comunicação. Mudamos o formato das nossas reuniões de pais e funcionários, as quais passaram a ser por turmas e em círculos, para que todos possam ter oportunidade de falar.

Passamos a envolver os pais no dia-a-dia escolar. Realizamos mutirões de limpeza na escola e no bairro aos sábados. Formamos frentes de trabalho, onde cada um realiza o serviço que mais se identifica, capinação, pintura, jardinagem, horta, conserto hidráulico, elétrico, limpeza, pedreiro, etc. Envolvemos todos os membros da família, comunidade e escola. Encerramos esta atividade, servindo um almoço coletivo, o qual é feito pelos funcionários e família. Um grande momento de descontração e união entre os envolvidos. Com esta realização, passamos a ter uma Participação efetiva no Conselho Escolar.

Elaboramos juntos o calendário das atividades a serem desenvolvidas, o plano de trabalho anual, o plano de ação pedagógico e plano de ação ambiental. Identificamos nossas forças, oportunidades, fraquezas, ameaças e buscamos estratégias para superar as adversidades e superarmos nossas metas, que foram definidas em conjunto.

Pais, alunos e funcionários

Fizemos parcerias com as universidades para intensificarmos na formação dos funcionários. Passamos a realizar formação em serviço, estimulando a todos os funcionários a estudarem, inclusive os serviços gerais e cozinheira. Criamos grupos de tutoria, onde cada funcionário tem um tutor.

Criamos os roteiros de estudos, proporcionando e incentivando aos alunos trabalharem em equipes.  Repensamos nosso currículo, o qual passa a ser integrado e integrador, rompe com a fragmentação das disciplinas. Resulta numa aprendizagem mais significativa.

Formamos grupos de tutoria, envolvendo pais, alunos e funcionários. Cada tutor tem um grupo de 06 a 08 alunos, no qual cada grupo tem uma responsabilidade. Onde todos compartilham as responsabilidades pela escola e aprendizagem dos alunos. A escola assume o papel de articuladora das diversas experiências educativas que os alunos podem viver dentro e fora da escola.

Incluímos em nosso currículo os saberes do território. A sala de aula, deixa de ser o único local de aprendizagem. Todos os espaços (escolares e não escolares) devem ser valorizados e estimulados para serem palcos de aprendizagem. Estimulamos a relação do aluno com seu território e com o bairro e a cidade em que vive.  A partir daí passamos fazer vários passeios no entorno da escola, nos parques, praças, teatros, cinemas, etc. Demarcando o direito ao espaço público.

Criamos oito oficinas, que são ministradas pelos professores: teatro, dança, desporto, filosofia, iniciação científica, literatura, língua inglesa e matemática lúdica. Assim os professores compartilham as responsabilidades pela educação de todos os alunos da escola.

Contar com a participação efetiva de funcionários, alunos, da família e da comunidade externa na escola foi fundamental para melhorar e avançar na aprendizagem das crianças. Esta parceria impactou positivamente no dia-a-dia escolar e na aprendizagem dos alunos e por consequência nos resultados alcançados nas avaliações externas, (nosso IDEB atual é 7.4, evasão zero há alguns anos e não temos rotatividade).

Hoje trabalho numa escola que incentiva a cultura colaborativa. Portanto somos solidários, tolerantes, criativos, alegres, acolhedores, envolventes e que todos aprendem. Aceitamos e valorizamos a diversidade. Fui literalmente agente transformada e transformadora da educação. Sou uma profissional mais feliz e realizada no meu fazer pedagógico. Não estou pronta, vivo cada dia aprendendo a ser democrática. É um processo constante de aprendizagem.

Lúcia Cristina Cortez é professora de Língua Portuguesa e especialista em gestão escolar, com 34 anos de experiência; diretora da Escola Municipal Professor Waldir Garcia, em Manaus, AM, desde 1995

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