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23 de Outubro de 2018
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Como a tutoria criou uma escola democrática

Na Escola Municipal Professor Waldir Garcia todos podem ter o acompanhamento personalizado

Por: Lúcia Cristina Cortez
Professor negro ensina alunos em sala de aula
Foto: Getty Images

O ano de 2016 foi o momento das principais mudanças das práticas pedagógicas na Escola Municipal Professor Waldir Garcia. Naquele ano iniciamos as tutorias de aprendizagem com os estudantes. No primeiro momento convidamos pais e funcionários para serem tutores. Aqueles que se dispusessem a dedicar um tempo para acompanhar o processo de desenvolvimento no dia a dia escolar dos seus tutorados. Após adesão e apresentação, realizamos a eleição. Cada tutorado tinha direito a escolher o seu tutor, o qual iria acompanhá-lo no processo educativo até sair da escola. No decorrer do processo ele pode mudar de tutor, desde que faça uma exposição de motivos para justificar a respectiva troca. 

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Esses grupos de tutorias são constituídos por seis a oito participantes. São comunidades de aprendizagens envolvendo todos os estudantes, pais e funcionários de todos os segmentos da escola (merendeira, serviços gerais, dentista, gestora, secretária etc) Todos os que trabalham na escola são considerados “educadores”. Cada aluno tem um educador/tutor que é responsável em acompanhá-lo no dia a dia escolar.

Nossas tutorias têm como principais objetivos: produzir experiências de diálogo, estabelecer relações de confiança e amizade, autoconhecimento e aprendizagens que extrapolam o aspecto cognitivo, pois nosso foco são as interações entre os diversos protagonistas envolvidos no processo educativo. Possibilitando assim, uma cultura colaborativa de aprendizagem e comprometimento com a educação do estudante. Assim todos os tutores, independente da função/cargo que exercem na escola, assumem e desempenham o papel de educadores.

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Essas rodas de conversas e vivências de diálogos das tutorias estão organizadas a partir de encontros semanais que duram em média uma hora e acontecem todas as sextas-feiras às 9:30, nos diversos territórios de aprendizagem da escola. Podendo também ser fora do ambiente escolar, como visitas a espaços públicos ou em participação de atividades culturais, desde que seja combinado com antecedência e autorizado pelos pais. Neste dia, todos os espaços internos e externos da escola são ocupados pelos tutores e tutorados. É a atividade mais esperada da semana, momento de muita criatividade, alegria e descontração. Hora da escuta, desabafos, denúncias, troca de experiências, relatos de aprendizagem, aplicação de dinâmicas, piqueniques etc. Todos os estudantes são acompanhados, acolhidos e podem se expressar livremente, criando vínculos afetuosos e de respeito.

Outra atividade desenvolvida pela tutoria é a construção do projeto de vida. Cada tutorado tem o seu diário, no qual escreve seus respectivos projetos.  Ele atribui um sentido para o que está realizando na escola. Reconhecendo que a educação não é só para transmitir conhecimentos, mas através dela cria-se possibilidades para realização dos seus sonhos.

A segunda ação permanente da tutoria é participar dos grupos de responsabilidades. Cada tutor e os tutorados são responsáveis em realizar uma tarefa para cuidar do ambiente escolar no decorrer da semana, como por exemplo: cuidar da horta, receber aos visitantes, limpeza do refeitório, clube da leitura, organizar o acesso ao telecentro na hora do recreio etc. Assim o grupo planeja ações coletivas que irão exercer nas suas respectivas responsabilidades.

Tutoria dos funcionários

Depois de um ano exercendo com sucesso a tutoria entre os alunos percebi que nós funcionários tínhamos necessidade de ter um projeto de vida, um roteiro de estudo. Tínhamos que investir em formação continuada e em serviço na escola, envolvendo toda equipe escolar. Daí surgiu a ideia de criarmos um projeto para realizarmos a tutoria de funcionários.

Realizamos parceria com a SEMED (Secretaria Municipal de Educação), instituições de ensino superior, como UFAM (Universidade Federal do Amazonas) e UEA (Universidade Estadual do Amazonas) e uma iniciativa da sociedade civil (CEFA – Coletivo Escola Família Amazonas).

Identificamos, definimos e convidamos os possíveis candidatos a serem nossos colaboradores, que nos ajudariam a suprir as necessidades da comunidade escolar em aprofundamentos teóricos, discussões e resoluções de problemas existentes.

Após o grupo formado, realizamos uma reunião com todos os tutores e tutorados para construirmos a proposta de trabalho a ser desenvolvida nos futuros encontros. Foi uma roda de conversa entre os 32 funcionários da comunidade escolar para apresentações dos perfis dos voluntários. Em seguida realizamos eleição direta para escolha dos respectivos tutores de acordo com a preferência de cada servidor. Formamos oito grupos, com quatro participantes. Todos ficaram constituídos de forma heterogênea, independente da função que exerce na escola. Por exemplo, o grupo que participo tem uma merendeira, serviços gerais e professor. Os membros então trocaram e-mails e telefones, para facilitar a comunicação.

A metodologia vivenciada neste projeto é construída coletivamente. Todas as regras são combinadas no decorrer do processo, os temas para formação, as situações problemas são sinalizadas nos grupos, discutidos e assim são organizados os roteiros de estudo. A periodicidade destes encontros é livre, conforme a necessidade e disponibilidade dos integrantes. Alguns são semanais, outros quinzenais ou mensais, os quais são estabelecidos pelos grupos.

Diálogo

Esta vivência pedagógica tem como principal característica o diálogo. Estas estratégias de trabalho desenvolvidas na tutoria de funcionários tem aprimorado o desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem democráticos e o protagonismo na escola e na comunidade. Dos encontros tem surgido ideias que potencializam as práticas inovadoras, tais como:  projeto de vida, ocupação do território educativo nos espaços externos, realização de sequências didáticas, participação da família na dinâmica escolar, intercâmbio entre escolas, oficinas com projetos, plano de estudos, entre outros.

Nossas práticas de tutorias foram inspiradas na metodologia de Design for Change, criada na Índia, que se fundamenta em quatro pilares:

  • SENTIR (praticar a escuta atenta e exercitar a empatia);
  • IMAGINAR (incentivar a criatividade entre os participantes para explorar múltiplos caminhos transformadores);
  • FAZER (mobilizar pessoas e fazê-las acreditarem nos seus sonhos);
  • COMPARTILHAR (sensibilizar outras pessoas e transformar olhares sobre determinada realidade).

As tutorias visam colaborar com as experiências de educação integral e democrática; com a aproximação e valorização da relação escola-comunidade; com o exercício de práticas pedagógicas significativas.

Após dois anos realizando as duas tutorias, podemos afirmar que elas têm contribuído para os seguintes resultados:

- Reduziu as faltas dos alunos;

- Envolveu ativamente a participação dos comunitários, estudantes, pais e funcionários nas atividades realizadas na escola;

- Promoveu a interação e entrosamento entre família-escola-comunidade e melhoria da convivência no contexto escolar, que se deu através da criação democrática das regras de convivência;

- Intensificou o exercício de experiências democráticas e de diálogo;

- Proporcionou um acompanhamento personalizado dos estudantes e funcionários;

- Favoreceu as relações horizontais entre os funcionários, estudantes, pais e comunitários, acabando com o distanciamento resultante da hierarquia;

- Articulou saberes, conhecimentos e experiências com toda comunidade escolar

- Criou a cultura e rotina de estudo entre os alunos e funcionários de todos os segmentos da escola, que fortalece os fazeres da comunidade escolar;

- Possibilitou a formação de saberes, visando a cultura colaborativa e profissional da comunidade escolar, para que todos se sintam comprometidos com a escola;

Especificamente quanto às tutorias, podemos afirmar que é o trabalho que tem possibilitado novos desafios e gerado diferentes processos de aprender e ensinar, os quais são mais colaborativos entre os comunitários, estudantes, pais e funcionários/educadores no espaço e tempo da escola, em razão de seus principais objetivos: contribuir para o desenvolvimento da autonomia, protagonismo e da participação cidadã de estudantes, pais e funcionários/educadores dentro e fora da escola e proporcionar encontros que valorizem o acolhimento e os saberes dos vários sujeitos envolvidos no processo.

Estamos criando condições para vivermos uma cultura de cooperação. Aprendemos a compartilhar as responsabilidades (pelas coisas, pela natureza, por si mesmo, e pelos outros, valores estes inspirados pela Escola da Ponte, uma instituição pública de Portugal).

Assim sendo, cito nosso grande mestre e inspirador Paulo Freire, aquele que nos faz acreditar que é possível que o gestor e toda escola possa mudar de mentalidade, buscar romper com o tradicional e inovar nas práticas educativas. E criarmos condições para o exercício da democracia e da cidadania na escola e na vida:

“Precisamos contribuir para criar a escola que é aventura, que marcha, que não tem medo do risco, por isso, que recusa o imobilismo. A escola em que se pensa, em que se atua, em que se cria, em que se fala, em que se ama, em que se adivinha, enfim, a escola que apaixonadamente diz sim à vida”. (Paulo Freire, 1995)

Lúcia Cristina Cortez é professora de Língua Portuguesa e especialista em gestão escolar, com 34 anos de experiência; diretora da Escola Municipal Professor Waldir Garcia, em Manaus, AM, desde 2005

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