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30 de Novembro de 2018
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9 dicas e 4 modelos de roteiro para mudar o processo de avaliação em sua escola

A escola da coordenadora Camila Zentner trocou as tradicionais avaliações pelos relatórios avaliativos e ela compartilha seus aprendizados do processo

Por: Camila Zentner
Crédito: Rawpixel/Unsplash

A chegada do fim do ano nas escolas é sempre muito celebrada por professores e alunos. Mas o momento também vem acompanhado das avaliações finais. Nos filmes – e, às vezes, na vida real – geralmente é retratado como momentos de terror dos alunos e, nos bastidores reais das escolas, tira o sono e os finais de semana dos professores. E não só deles, não é mesmo, coordenadores?!

Hoje em dia, muitas redes de ensino trocaram o sistema de boletim pela escrita de relatórios descritivos da aprendizagem dos alunos. Foi o caso da rede em que trabalho, em Guarulhos (SP). Após um longo debate entre os educadores, optou-se pela escrita de relatórios individuais para todos os alunos da Educação Infantil (zero a cinco anos), Ensino Fundamental I e Educação de Jovens e Adultos (EJA). Embora trabalhoso, devido ao número de alunos por sala (uma média de 35 alunos), foi uma conquista para nós. O relatório é um dos instrumentos avaliativos que mais revelam para todos os envolvidos no processo (alunos, professores, gestores e famílias) o desenvolvimento global de cada aluno na escola, trazendo informações que um número (nota) ou conceito jamais é capaz de oferecer.

A prática dos relatórios já existia em nossa escola há bastante tempo. No entanto, ela geralmente era utilizada somente para alunos com dificuldades de aprendizagem. Com a mudança na rede, fomos todos colocados no desafio de observar e utilizar diferentes formas para avaliar cada aluno, para que conseguíssemos escrever sobre o processo de aprendizagem de todos.

Os desafios do novo modelo

Sem descartar a tradicional prova, somamos outros instrumentos avaliativos. Assim a observação, registros (fotos, filmagens, gravações de voz em rodas de conversa e outros diálogos, diário de bordo), trabalhos em grupo, autoavaliação, apresentação em seminários e outros passaram a ser subsídios para compor os relatórios avaliativos.

No momento da escrita do relatório, outro desafio foi adequar a linguagem para que fosse compreendida por todos. Um texto muito técnico pode auxiliar o trabalho do professor do próximo ano, porém, em nada vai contribuir para o entendimento e participação das famílias no processo de ensino e aprendizagem. Além disso, o tempo também era um desafio. Como escrever sobre tantos alunos em tantos aspectos diferentes em pouco tempo? É aí que entra o papel do coordenador para criar estratégias de otimizar e qualificar essa escrita dos professores.

O passo a passo para construir os relatórios avaliativos

1) Procure inspiração em quem já trabalha com o modelo. Outras escolas e coordenadores já passaram por essa experiência e trazem dicas de como facilitar o trabalho. Na minha busca para entender mais sobre o tema, encontrei grande inspiração e subsídios no trabalho da EMEI Nelson Mandela, de São Paulo. O blog da escola traz uma prática consistente e consolidada sobre registros avaliativos, além de inúmeras dicas de como os professores podem escrever melhor seus relatórios e de como os gestores podem formar e acompanhar sua equipe. O próprio site de GESTÃO ESCOLAR também foi fonte de pesquisa e trouxe várias contribuições para prática que temos hoje e conto um pouquinho aqui.

2) Construa um roteiro de orientações para os professores. O nosso foi construído a partir desse primeiro estudo. A ideia de um documento orientador é facilitar o trabalho do professor e garantir que toda equipe possa ter um norte e saber quais elementos devem constar no relatório. Compartilho o da nossa escola com vocês neste link.

3) Faça momentos de formação explorando a nova prática. Como imaginávamos, apenas o roteiro de orientações não foi o suficiente para gerar relatórios completos e que de fato revelavam o desenvolvimento da aprendizagem dos alunos. Há que se formar todo o grupo por um bom período de tempo para adquirir esta nova prática. Contudo, essa experiência que num primeiro momento pode parecer malsucedida, serviu de base para a escrita das orientações do ano seguinte.

4) Use os aprendizados da primeira experiência para aprimorar a prática. No primeiro ano de escrita de relatórios em nossa escola, minhas companheiras gestoras (diretora e vice-diretora) e eu fizemos uma força tarefa para ler todos os relatórios dos alunos. A experiência trouxe inúmeras informações importantes para o trabalho a ser desenvolvido no próximo ano. A primeira e mais importante delas foi a constatação de que é humanamente impossível um coordenador conseguir ler todos os relatórios de uma escola grande como a nossa!

5) Faça leitura por amostragem. Foi aqui mesmo, no site de GESTÃO ESCOLAR, que descobri, posteriormente, que a leitura por amostragem é muito mais eficaz. Ela garante a revisão por parte do coordenador que, ao ler cerca de três a cinco relatórios de cada professor, pode apontar o que precisa ser alterado, melhorado, retirado e acrescentado no texto. E, em um diálogo pessoal ou por e-mail, vai tornando-se parceiro do professor e coautor dos relatórios.

6) Levante os principais equívocos para apontar os melhores caminhos. A leitura dos primeiros relatórios de nossa escola também nos permitiu fazer um levantamento dos principais equívocos apresentados na escrita dos professores. Seja este de concepção de infância e Educação da qual segue nosso projeto político-pedagógico (PPP), quanto do uso de termos ou expressões que nada contribuíam para relatar o processo de ensino e aprendizagem das crianças.

Por não estarem acostumados a escrever sobre todas as crianças, por vezes, os professores eram pegos escrevendo muito sobre a turma e pouco sobre a criança. Ou apontando somente características pessoais dela, que pouco ou nada tinham relação com sua aprendizagem – como ser carinhosa, tímida ou caprichosa – e não relatando seu desenvolvimento nas diferentes áreas do conhecimento e quais as intervenções realizadas neste processo.

7) Revise as orientações de acordo com os principais equívocos cometidos. O levantamento feito serviu de base para um novo documento orientador, que foi trabalhado nas reuniões pedagógicas do ano seguinte com os professores. Clicando aqui, você pode ter acesso ao modelo que usamos com as novas orientações para o relatório avaliativo. 

8) Faça as perguntas certas para obter as respostas que deseja. Ao longo do tempo, fomos criando outras estratégias que pudessem enriquecer a escritas desses relatórios. Uma delas, que nos ajudou bastante, foi um roteiro com perguntas para auxiliar os professores na construção do texto, parágrafo a parágrafo. Aqui, você encontra o modelo que usamos para a Educação Infantil e nesse outro link, para o Ensino Fundamental

Temos realizado esse trabalho sempre na perspectiva da formação e não da obrigatoriedade, para que o grupo vá cada vez mais qualificando sua escrita e percebendo essa importância para o seu próprio trabalho, para o trabalho dos colegas, para a compreensão das famílias e, porque não, dos próprios alunos, atores do processo.

9) Realize oficinas de produção de texto. Na perspectiva da formação em serviço, outra sugestão é realizar oficinas de produção de texto com os professores, trabalhando o gênero “relatório avaliativo”. Nela, é possível ir construindo – como é feito com as crianças – um texto coletivo, a partir de uma situação real citada pelo grupo. Aponte o que não pode faltar, a melhor forma que pode ser escrito e destaque outras informações que considera relevante. O que vale é envolver a equipe e se colocar como parceiro nessa tarefa. Embora cansativo, esse modelo referenda o trabalho de cada um e garante uma avaliação mais completa e integral das crianças, além de ser aquela atividade derradeira que sempre termina nas tão esperadas e merecidas férias!

Um abraço,

Camila Zentner Tesche

Formada em Pedagogia com especialização em Educação Infantil pela Universidade de São Paulo (USP), está na coordenação pedagógica da Escola da Prefeitura de Guarulhos Manuel Bandeira há nove anos. A EPG atende a Educação Infantil e o Ensino Fundamental I e, desde 2015, faz parte do mapa de escolas inovadoras do MEC.

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