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04 de Dezembro de 2018
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12 aprendizados para engajar a equipe

Confira as experiências que 4 gestores tiveram ao longo de suas trajetórias

Por: Laís Semis
Crédito: Guilherme Antunes, Lara Alcadipani, Amaral Barbosa, Cleuza Repulho e Izolda Cela. Crédito: Fundação Lemann/Produtora Maica


Aos 21 anos, Amaral Barbosa ainda cursava Pedagogia, mas assumiu a direção de uma escola em Pedra Branca, no interior do Ceará. O diretor iniciante ainda não sabia, mas suas primeiras decisões deram início a uma gestão democrática. “Tudo começou quando reunimos os professores para uma conversa”, relata. “Naquela conversa, nasceu um propósito: nós precisávamos mudar essa realidade tendo em vista o nosso futuro e o futuro de todas as pessoas daquelas comunidades”. Hoje, Amaral é técnico da Secretaria de Educação de Quixeramobim (CE), consultor de municípios no Mato Grosso e membro da rede Conectando Saberes.

Quem é gestor ou mesmo um professor que gosta de trazer novidades para a escola sabe: engajar a equipe nem sempre é uma tarefa fácil. O tema foi discutido na mesa “Diálogos que Constroem: Como engajar todos os profissionais de educação em políticas públicas efetivas”, parte da programação do encontro Redes que Transformam, iniciativa da Fundação Lemann, mantenedora de NOVA ESCOLA e GESTÃO ESCOLAR. Abaixo, selecionamos 12 aprendizados desse processo vivenciados por Amaral Barbosa, Cleuza Repulho (ex-presidente da Undime e consultora do Formar), Izolda Cela (ex-secretária de Educação do Ceará e vice-governadora do estado) e Lara Alcadipani (gerente de relações institucionais da Fundação Lemann).

  1. Ninguém se engaja no que não acredita

Imagine você, coordenador ou diretor, em relação às demandas que chegam da secretaria. Se a solicitação ou a demanda que é repassada à escola em nada parece contribuir para os objetivos e necessidades do dia a dia, qual é o seu engajamento em realizar essa iniciativa? Provavelmente se tornará uma demanda feita com menos empenho do que se você enxergasse o potencial de resultado. Em alguns casos, ela poderá até mesmo ser ignorada pela experiência de que o pedido é descompassado com a realidade e não trará nada além de mais trabalho. A mesma coisa acontece com os professores diante das demandas trazidas por gestores nas quais eles não acreditam. “Os professores precisam acreditar, se sentir parte do problema, mas também parte da solução”, diz Amaral.

Para superar esse impasse, o ideal é envolver toda equipe no processo de construção de projetos. “Quando há participação, as pessoas se sentem mais ‘donas’ do projeto quando chega para ser realizado”, diz Lara Alcadipani. “Mais cabeças pensando as diferentes maneiras de abordar esse problema aumentam as possibilidades de construir melhores soluções”.

  1. O engajamento é conquistado aos poucos

Não tem receita mágica. Seja você um gestor novo ou conhecido na escola, ter o engajamento de toda a comunidade é uma conquista diária. “A gente não consegue engajar 100% das pessoas num estalar de dedos”, afirma Amaral. “Hoje, você conquista alguns, amanhã, um pouco mais. E aqueles engajados vão ganhando força conforme os objetivos vão ficando claros até que a rede começa a se mobilizar”.

Parte disso, de acordo com Izolda, vem da credibilidade do gestor junto à sua  equipe. “Quem está na gestão, seja da escola ou da secretaria, precisa mostrar que os combinados acertados não serão ‘atravessados’. Credibilidade é muito importante para termos moral”, diz a ex-secretária de Educação do Ceará.

  1. É preciso deixar o diálogo – e a porta da sala do gestor – abertos

Não adianta o gestor ir atrás da equipe somente quando precisa de seu trabalho ou apoio. O diálogo é uma via de mão dupla. Por isso, é importante que o gestor também se coloque à disposição dos funcionários quando eles precisam de auxílio (ou até mesmo de um momento de desabafo ou para pedir um conselho profissional). “A sala da direção precisa ter a porta sempre aberta”, ressalta Amaral Barbosa. A rotina é corrida, mas fazer-se disponível pode ajudar a estabelecer uma relação de confiança. “Eu sempre faço uma provocação para os diretores: de quantos problemas dos professores você sabe? Se o professor não compartilha, é porque ele não sente abertura”.

  1. O diretor precisa se envolver nas demandas pedagógicas

“O coordenador não tem a obrigação de ser administrativo, mas o diretor tem a obrigação de ser pedagógico”, defende Amaral. Para ele, estar a par dos resultados da escola, dos problemas e conseguir ajudar a encontrar caminhos para os desafios pedagógicos é essencial para gerir a equipe e fortalecer o projeto da escola. “Como vamos elaborar uma meta se não sabemos onde nós acertamos e erramos? O diretor precisa saber quantos alunos não alfabetizados existem dentro de sua escola. Os conselhos de classe precisam de fato serem estudados”.

  1. Decisões coletivas também exigem responsabilização das partes

Um plano de ação deve contemplar todos os atores que fortaleçam a aprendizagem. Assim, cada um é responsável por uma parte do que ficou decidido como o conjunto de ações que serão realizadas ao longo do mês, do bimestre ou do ano. E, da mesma forma, deve ser responsabilizado pela parte que lhe cabe. “A partir do momento que vocês decidem juntos, é preciso responsabilizar as partes. Às vezes, todo mundo decide, mas na hora da ação, nem todos estão envolvidos”, aponta Amaral. “Ou ainda na hora de responsabilizar pelo sucesso ou fracasso, só aqueles que criaram ou conduziram determinada ação são lembrados. Quando todo o processo é coletivo, todo mundo se sente parte do problema e da solução”.

  1. As evidências dão clareza dos problemas (e embasam os argumentos para usar com a equipe)

Dados são essenciais para confirmar as hipóteses do que está ou não dando certo. “Saber exatamente qual é a realidade traz elementos importantes que vão refinando o diagnóstico”, aponta Izolda Cela. “É preciso analisar elementos que têm impacto mais direto na aprendizagem, como frequência do aluno e do professor”. Além disso, ter os dados em mão também dá mais clareza sobre a dimensão do problema e a necessidade de foco da equipe para atuar em cima dele. Mais do que uma impressão, passa a ser um indicativo concreto da necessidade de ações para solucionar tal problema.

Cleuza Repulho e Izolda Cela. Crédito: Fundação Lemann/Produtora Maica

  1. Seja a mudança que você quer ver nos outros

Essa é uma reflexão que Amaral Barbosa gosta de aplicar a si mesmo e levar a outros educadores. “Eu sou a transformação que eu gostaria que acontecesse na Educação do meu município, estado ou país? Que ser humano eu estou ajudando a construir para lidar comigo mesmo dentro da sociedade no futuro? Estamos tentando transformar situações ou pessoas?”, questiona o gestor cearense. Para ele, não se pode perder o ânimo de transformar a Educação, mas também é preciso lembrar que cada indivíduo tem seu papel mudança. E, antes de cobrar o outro pela sua eficiência, é necessário questionar também o seu empenho na iniciativa e qual desempenho está sendo atingido. “Nós lideramos muito pelo exemplo”, define Amaral.

  1. Nenhum gestor dá conta de tudo. É essencial estabelecer prioridades

Depois do diagnóstico, é possível que você descubra que há muito trabalho pela frente. Antes que o desespero tome conta da equipe (e de você!), é preciso ter em mente que nenhum gestor dá conta de tudo ao mesmo tempo. É preciso estabelecer um plano de ação que leve em conta as prioridades que podem ter impacto e ajudar na resolução de outras questões. “Se não há delimitação daquilo que pode representar o fechamento de uma torneira de problemas, é muito mais difícil gerir”, explica Izolda Cela. “Vamos correr atrás de todos os pontos que foram diagnosticados como necessários, mas precisamos estabelecer três pontos, no máximo, que nós vamos tornar conhecidos, apropriados por todos e investir no engajamento da equipe em cima desses pontos”.

  1. Não adianta só cobrar, é preciso participar

Os planos de ação do ano devem ser feitos de forma colaborativa. Neles, professores e gestores apontam as ações que cada uma das partes precisa fazer para atingir os resultados esperados. Para que esses planos atinjam seus objetivos, é preciso estar sempre retomando os tópicos com a equipe e auxiliar nos processos que não estão avançando dentro do previsto. “Não é justo dizer: a meta é essa, se vira”, diz Izolda. “Precisa ser: estamos juntos e, então, vamos juntos, cada um com a sua parte. Acompanhamento e apoio são necessários”.

Para isso, a vice-governadora do Ceará, que já foi professora do Ensino Fundamental e secretária de Educação do estado, diz que as avaliações permanentes têm um papel essencial nesse processo. “Em Sobral, os resultados das avaliações já eram revertidos em novas ações”, conta ela, referindo-se ao município que implantou sistemas de avaliação. Com a equipe vendo os primeiros resultados dos seus esforços, eles se engajam mais nas propostas, diz.

  1. Ajude a criar uma consciência de que todos têm sua parcela de reconhecimento no sucesso, mas também de culpa no problema

Para Cleuza Repulho, Educação é prestação de serviço e, como tal, deve atender ao público de forma eficiente e comprometida. “As pessoas que se candidatam ao concurso público se candidatam a um cargo para uma função”, diz. “Ninguém quer entrar em um hospital e ser operado por um médico que não concluiu o curso ou um voluntário. Mas tem gente que acha que tudo bem colocar voluntário na escola”. Na visão da ex-presidente da Undime, é essencial colocar a escola como um espaço profissional e de boa formação. “Se uma classe inteira não acerta fração, precisamos olhar para o professor de Matemática e proporcionar a formação correta para ele”. Nesse contexto, uma opção seria avaliar os professores, dar oportunidade para que possam corrigir as lacunas em sua formação e depois cobrar resultados. É necessário batalhar por melhores condições de carreira, mas os problemas de formação não podem ser desculpa para perpetuar erros. “Não dá para dizer: olha, como eu não te pago bem, tudo bem você não dar aula. Professor não é vítima, é profissional. E profissional precisa de salário, carreira e condições de trabalho, não dá pra misturar as coisas”.

  1. Um clima escolar ruim é desestimulante

O engajamento das pessoas com os projetos da escola passa pelas variáveis da qualidade do relacionamento entre a equipe e do ambiente de trabalho no qual é proposto. Um bom clima escolar é favorável para o desenvolvimento de projetos e cumprimento de metas. “Uma das coisas mais desestimulantes em uma profissão é a pessoa achar ruim ir para o trabalho”, diz Izolda Cela. Contagiar positivamente o ambiente, identificar o que vai mal e tentar trabalhar para reverter o jogo é essencial. No que diz respeito às relações de trabalho, Izolda destaca que um estímulo é equilibrar as altas expectativas ao mesmo tempo que dar apoio. “Ter equilíbrio torna o ambiente mais saudável. As pessoas respondem aos sinais e isso agrega a equipe”.

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  1. Reconhecimentos são bem-vindos

E não é só financeiro, não. Garantir algum tipo de bonificação por um trabalho ou atingimento de metas cabe às redes. Mas há caminhos de reconhecimento que a escola pode liderar internamente. Izolda destaca que o incentivo social pode ter um grande impacto no engajamento da equipe. Quando as pessoas são reconhecidas pelos méritos que a escola ou uma turma recebe, elas se sentem valorizadas e parte daquela construção de sucesso. Quando os resultados são divulgados, quando há evidências de que o planejamento está se concretizando em boas práticas ou quando algum aluno é premiado em um concurso ou olimpíada é momento de comemorar e dar crédito a todos os envolvidos. “É algo bacana porque mostra que a equipe está apropriada daquela conquista”, diz Izolda. Mas, segundo ela, não dá para parar aí: é preciso buscar sempre novos desafios e continuar mapeando outros pontos a serem trabalhados pela escola. “Tem muita estrada pela frente para que um dia a gente oferte a boa escola que a população merece e satisfazer os valores democráticos de um serviço à altura”.

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