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11 de Dezembro de 2018
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Imagina uma cidade das crianças. Imaginou? Pode começar na sua escola

Será que a partir das nossas calçadas podemos garantir uma cidade melhor para as crianças?

Por: Priscila Arce

Fotos: @thatacanhete @seja.mudah

Calçada pintada pelos alunos, professores e familiares diante da EMEF Sebastião Francisco, o Negro, na zona leste de São Paulo  

Existe um movimento mundial que luta por um desenho urbano mais sustentável, que permita o estreitamento de laços afetivos, a ocupação da rua para lazer, defendendo-se caminhos para a diminuição dos efeitos do aquecimento global e de doenças típicas dos centros urbanos, como depressão, diabetes, obesidade, entre outras.

O modelo que organiza a cidade vai nos dizendo que a prioridade na rua é dos carros e as estreitas calçadas não são dos pedestres, se transformaram em propriedade privada como destaca Tonucci (2016).  Algumas praças públicas são tomadas por descarte irregular de lixo e cada vez menos as crianças podem ocupá-las para brincadeiras, piquenique, leituras e encontros com amigos. As nossas calçadas estão distantes de padrões acessíveis e que permitam a convivência entre as crianças, jovens, adultos e idosos.

Quem pensa a cidade para as crianças da periferia? Podem as crianças da periferia ter voz nos planos destinados a elas? Em São Paulo existe a lei municipal nº 14492/07 idealizada pelo vereador Eliseu Gabriel que considera a área escolar prioridade especial do governo municipal, garantindo tranquilidade às crianças, pais e professores em um raio de 100 metros ao redor da escola. A lei garante: placas a serem fixadas nas proximidades da escola, pavimentação de ruas e calçadas, manutenção permanente de faixas de travessia, entre outras questões. O grande desafio é tirar a lei do papel: estamos há muito tempo tentando concebê-la na realidade e esbarramos na lentidão e falta de recursos e interesse do poder público em executá-la, principalmente em regiões que estão longe dos holofotes e rotas turísticas e comerciais.

A prefeitura municipal de São Paulo acabou de aprovar o Plano Municipal pela Primeira Infância com validade de 2018 a 2030, que tem entre suas metas tornar o ambiente da cidade mais acolhedora para as crianças. Ao longo do documento, os desenhos das crianças revelam os problemas da cidade e a única referência de lugar divertido que conseguem imaginar são os parquinhos, quadras esportivas. Esperamos que o plano proponha medidas práticas para construir uma cidade melhor para todas as crianças. Todas as vezes que leio os planos e as legislações correlatas penso na situação das crianças de nossa escola, que ainda não têm direito a uma calçada acessível e uma escola dentro dos padrões de acessibilidade.

Há anos, as duas calçadas que cercam a EMEF Sebastião Francisco, o Negro que fica na zona leste de São Paulo são alvo de descarte irregular de lixo. As crianças e familiares têm que lidar com um cenário de calçada hostil, que provoca a sensação de abandono e a sensação de que é difícil chegar à escola. Muitos projetos são articulados pela escola junto a diferentes atores da sociedade civil e poder público para superar este cenário. A escola no ano de 2017 foi vencedora do Prêmio Territórios Educativos promovido pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e o Instituto Tomie Ohtake pelas ações que desenvolveu para tentar resolver o problema com o projeto “Vamos Jogar Limpo – o Entorno Escolar e o Caminho para Aprendermos Juntos”, inspirado nas contribuições da arquiteta e urbanista Irene Quintáns, que tem pensado a cidade para crianças no Brasil. O contato com Irene alargou os horizontes de atuação e articulação da escola com outros atores da sociedade civil e poder público.

O ImaginaC idealizado por Nayana Brettas tenta ser oposição ao modelo de que quem manda na cidade são os carros, defendendo que as calçadas e ruas devem ser das crianças. Com uma experiência realizada no bairro do Glicério, que mobilizou diferentes esferas da sociedade civil, ela acredita que podemos transformar a cidade a começar por medidas mais simples e planejadas em conjunto com as próprias crianças, adultos e parceiros. A sociológa Nayana criou uma metodologia de escuta das crianças para ocupar e transformar os espaços urbanos com elas a partir de suas narrativas e criação de criaturas fantásticas com poderes de transformar a realidade. Assim, as crianças podem recriar os espaços que não foram concebidos e pensados por elas. Nayana defende o direito das crianças de reconstruir a cidade a partir de seu imaginário e da cultura lúdica da infância.

Alunos, familiares, professores e membros da comunidade participam do projeto de retomada do espaço das calçadas no entorno da EMEF Sebastião Francisco, o Negro   Foto: Acervo pessoal

Desta vez contamos com as criaturas fantásticas da “cidade que brinca”, estas criaturas imaginadas pelas crianças com superpoderes para melhorar aquilo que os adultos e as políticas públicas não resolvem. Com a ajuda de toda a equipe escolar, de um grupo de pais e filhos, do viveiro Arthur Etzel (sempre com a ajuda do brilhante senhor Elton que costuma plantar com o coração nos dedos), do vizinho Zico que pediu para plantar flores na calçada, de Nayana e seu foguete, do artista Feik, de um grupo de voluntários que se interessaram em realizar uma conexão com nosso território, nós mapeamos nosso entorno e ocupamos nossa calçada com uma intervenção coletiva. O resultado foi cooperação, aprendizagens, trabalho coletivo e uma calçada mais alegre e bonita com a cara das crianças.

A ação em nossa calçada ocorreu em um sábado e para minha surpresa como diretora encontro um grupo de idosos reunidos no portão da escola na segunda-feira ao chegar ao trabalho e me dirijo a eles preocupada perguntando se havia acontecido algo na escola. Eles se entreolharam e disseram: “Você é a diretora?” E eu disse: “Sim, está tudo bem por aqui?” Entre muitos risos e um longo elogio – “Olha, diretora, está tão agradável ficar aqui, este colorido, as plantinhas, que nós resolvemos prosear e ficar por aqui!” Eles me sugeriram colocar uma faixa com o número de telefone para quem quisesse denunciar quem joga lixo ali na rua. Sorrisos, afagos e encontros... Assim, continuou o primeiro passo de nossa ação de um sábado de sol e muito trabalho coletivo.

Como defende Tonucci, é necessário que a cidade se torne das crianças. E vai a pergunta para o diretor, para a equipe das escolas: vocês tentaram sair no portão da escola hoje? E o que encontraram por lá? Será que a partir das nossas calçadas podemos garantir uma cidade melhor para as crianças? O nosso currículo sai das salas de aula ou fica nas grades? A calçada nos parece um começo importante para todas escolas que pretendem se conectar com o território, além de pressionar o poder público para melhoria deste entorno que deveria ser das crianças e não do abandono, do lixo, da violência, da insegurança. Pode ser um bom começo para repensarmos o papel da escola neste território e em uma cidade melhor para todos, a começar pelas crianças.

Priscila Damasceno Arce é diretora da EMEF Sebastião Francisco O Negro, na zona leste de São Paulo-SP. Estudou em escola pública a vida toda e também foi professora e coordenadora pedagógica. É mestre pela PUC/SP e recebeu o prêmio Paulo Freire.

Veja mais em:

SÃO PAULO (Prefeitura Municipal de São Paulo). Plano Municipal Pela Primeira Infância - 2018-2030. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1MYzjwVWwl3sYRrigA2H8F8KtmN4aTq-Z/view. Acesso em: 08 nov.2018.

SÃO PAULO. Lei Municipal nº 14492/07. Dispõe sobre a Área Escolar de Segurança. Disponível em: http://www.eliseugabriel.com.br/novosite/pdf/manual-area-escolar.pdf. Acesso em: 08 nov. 2018.

BRETTAS, Nayana. Cidade que Brinca. Editora: Paulus, 2017.

TONUCCI, Francesco. A Solidão da Criança. Trad. Maria de Lourdes Tambaschia Menon; revisão Ana Lúcia Goulart de Faria. Campinas, SP: Ciranda de Letras, 2018.

Cuando los ninos dicen !Basta! Editorial: Graó. De IRIF, S.L. 2016.

 

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