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07 de Janeiro de 2019
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O que a escola ganha com o conselho participativo?

Compartilhar a responsabilidade é um dos caminhos para se alcançar a tão sonhada qualidade de ensino

Por: Cláudio Neto
Crédito: Getty Images

O conselho participativo consiste em uma reunião da qual participam pessoas de todos os segmentos da escola: professores, alunos, pais, coordenação pedagógica e direção, com o objetivo de analisar o desempenho dos estudantes. Em outras palavras, o conselho participativo é um colegiado representativo de caráter consultivo e deliberativo, voltado para a avaliação e o acompanhamento do desempenho escolar dos alunos. Embora todas as escolas (públicas e privadas) façam uma reunião bimestral com o mesmo objetivo, a restrição da participação aos professores, coordenação e direção faz com que ela seja conhecida como conselho de classe.

Eu tive a minha primeira experiência com o conselho participativo no começo da década de 1990, quando iniciei a minha carreira na educação pública como professor de História no Ensino Médio. Eu e os meus colegas discutimos e implementamos esta metodologia de trabalho e descobrimos o quanto ela é democrática, formativa e eficaz para avaliar os estudantes, porque é fundada no diálogo e no respeito.

Como se tratava de alunos do Ensino Médio, de relativa autonomia de estudos e responsabilidade, não havia a necessidade de envolver os responsáveis nesse processo. Ao longo desses anos, o conselho participativo foi se tornando cada vez menos um espaço comum de discutir notas e passando a ser cada vez mais um momento coletivo de apoio ao estudante e às famílias, porque já nos primórdios dos anos de 1990, alunos, professores, coordenação pedagógica e direção chegaram à conclusão de que esta é a maneira mais democrática de promover a avaliação formativa na escola.

Como realizar o conselho participativo com alunos do Ensino Fundamental?

O comunicado

O conselho participativo de cada classe dura em média duas horas e tem dia e horário determinados. A escola informa aos alunos e envia o comunicado aos pais com pelo menos duas semanas de antecedência para que eles possam se organizar. Assegurar a participação de todos é fundamental e avisar com a devida antecedência é uma estratégia importante.     

Como fazer

A reunião do conselho participativo geralmente se inicia com a fala do professor orientador da classe (eleito pelos alunos), que traça um panorama geral da turma. Em seguida, fala do rendimento do primeiro estudante, seguindo a lista de chamada, e passa a palavra para os demais colegas. Todos os professores podem fazer considerações acerca do desempenho do aluno que está sendo avaliado. Em alguns casos, especialmente quando há discrepância entre o perfil do estudante e o seu desempenho, os professores solicitam esclarecimentos a fim de entender o que está acontecendo e sugerir alguns encaminhamentos.

Após as considerações da equipe da escola o aluno que está sendo avaliado e os seus pais ou responsáveis podem se manifestar. Na maioria das vezes os comentários são construtivos, mesmo quando se trata de alunos com desempenho aquém do esperado, porque tanto os pais quanto os alunos reconhecem a boa intenção da escola em promover esse momento aberto de avaliação.

A objetividade

É importante zelar pela objetividade e falar do rendimento escolar dos estudantes para não se perder em comentários desnecessários e/ou moralistas de ordem comportamental. O colegiado não deve se ater simplesmente ao que o aluno faz ou deixa de fazer. É muito importante falar daquilo que ele deveria aprender, do que aprendeu ou do que não foi aprendido, para que as orientações sejam precisas. O respeito mútuo é a chave de sucesso desse processo, de modo que tanto os sentimentos de predileção quanto o de aversão por alguns alunos sejam evitados. Evidentemente, os professores podem nutrir um sentimento de maior admiração por determinados alunos, mas isso não deve prevalecer nesse momento de avaliação. De igual modo, o desempenho exemplar de alguns alunos não deve ser usado para constranger aqueles que têm mais dificuldades.

O inesperado

É muito importante destacar que há um aspecto interessante sobre o qual não se pensa quando a escola decide fazer o conselho participativo, e que se revela como um dos resultados fundamentais desse processo, que é a dimensão subjetiva, ou seja, os impactos que não fazem parte diretamente do objetivo inicial quando se pensa na inclusão dos alunos nesse momento de avaliação. É por meio dos conselhos participativos que muitos alunos aprendem a avaliar a sua trajetória escolar, desenvolvem a capacidade de argumentar, adquirem autocontrole e incorporam as regras necessárias à realização desse tipo de reunião. Empatia, respeito ao ponto de vista divergente e autocrítica são aprendizados que os alunos adquirem para a vida inteira.

Do temor à certeza de sucesso

Basta realizar a primeira reunião para se ter a certeza de que os alunos e os pais também têm interesse em conversar abertamente sobre o processo de formação e desempenho escolar. Mais do que um mero encontro de pessoas com interesses comuns, o conselho participativo é um momento de avaliação formativa em que o estudante se vê ao mesmo tempo como sujeito e objeto da sua própria aprendizagem, uma vez que ele pode refletir sobre as percepções que os professores, pais e as demais pessoas têm a respeito do seu jeito de ser estudante. Ao experimentarmos pela primeira vez esta forma de avaliação nós vimos que o medo de possíveis confrontos entre professores e alunos logo se dissipou.

    

O contraponto

O conselho de classe sempre foi um lugar de muita tensão, envolvendo alta carga emocional, porque, em alguns momentos, há divergências entre os professores quanto à percepção do desempenho de determinados estudantes. Em razão disso, alguns educadores temem que a presença de estudantes no conselho de classe possa gerar mal-estar ou até mesmo confronto entre alunos e professores, principalmente em momentos decisivos de aprovação ou reprovação. Como se vê, a justificativa para manter o conselho de classe no modelo tradicional, sem a participação de alunos e de pais, está na negação do conflito. O temor da divergência ou do desentendimento é o que determina a exclusão de alunos e pais de um momento de avaliação formativa tão primordial como o conselho participativo.

Quais são os desafios a superar?

Ainda que os conselho participativo ajude a engajar os alunos num ritmo de estudo mais adequado na Educação Básica algo que nunca foi uma tarefa muito fácil para os educadores, sobretudo quando se quer envolvê-los no próprio processo de avaliação , este momento rico de apreciação coletiva do rendimento escolar não é muito conhecido ou mesmo experimentado nas escolas brasileiras. Em muitas, ainda se desconhece o potencial pedagógico desse momento avaliativo e, em outras tantas, se teme o confronto com os estudantes, uma vez que, no momento em que se avalia, o diálogo é direto entre quem avalia e quem é avaliado. Nesse sentido, aprender a explicitar os conflitos na escola é algo vital para a formação de sujeitos críticos. Através do confronto de pontos de vista divergentes, mesmo no momento de avaliação dos estudantes, aprende-se a respeitar e a ter empatia, quando a mediação é feita pelo diálogo.  

Conhecer esta proposta de trabalho e não temer o diálogo com os estudantes na hora de avaliá-los são duas coisas muito importantes para melhorar o desempenho escolar, particularmente quando se trata de estudantes da segunda etapa do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano), já que nesta fase a prática de estudos passa a ser mais sistemática, exigindo autonomia e maior responsabilidade.

Os alunos do Ensino Fundamental estão preparados para isso?

Com os alunos do Ensino Fundamental o conselho participativo ganha mais força e pode ser ainda mais potencializado porque as famílias também passam a fazer parte do processo. Nesse caso, o conselho passa a ser composto por todos os segmentos da escola diretamente envolvidos na aprendizagem (alunos, professores, responsáveis, coordenação e direção). Este envolvimento permite o diálogo direto e franco que dá a real dimensão do rendimento escolar, sem negar aos alunos e aos pais a oportunidade de esclarecer aspectos subjetivos que podem influenciar na participação ou na realização das atividades acadêmicas. Durante alguns conselhos participativos que realizamos os alunos e os pais revelaram dificuldades pelas quais estavam passando que, muito provavelmente, jamais teríamos tomado conhecimento fora desse contexto. Por outro lado, permite também que os pais tomem conhecimento do desempenho escolar dos filhos na condição de estudantes, já que o ofício de aluno nem sempre é incorporado por um/a filho/a, ainda que este/a tenha um comportamento exemplar em casa. Em linha gerais, podemos dizer que o ofício de aluno diz respeito ao modo de encarar os estudos, a disposição para realizar as atividades, o compromisso frente aos trabalhos e desafios propostos, e o modo de se portar frente aos colegas e aos professores. Enfim, pode-se dizer do saber de ser aluno, das estratégias que se serve para pesquisar, superar os limites e aprender.

Os resultados

Outro aspecto importante sobre o conselho participativo é o fato de ele se tornar imprescindível na dinâmica escolar. Quando se experimenta esta metodologia de trabalho não se abre mais mão dela. Na escola em que eu sou diretor nós implantamos este colegiado nos seis primeiros anos e resolvemos abolir em 2017 e 2018, o que se revelou uma experiência desastrosa, porque a impossibilidade de tratar do desempenho escolar de forma aberta com os alunos e seus responsáveis afetou a maneira dos primeiros se relacionarem com os estudos, já que a trajetória escolar de cada um deixou de ser de responsabilidade de todos.

Para os colegas gestores ou professores que nunca tiveram a oportunidade de viver esta experiência eu posso dizer que vale a pena experimentar. Promover um momento de avaliação formativa e de discussão do desempenho escolar é a melhor maneira de integrar todos os segmentos da escola, especialmente porque possibilita que os estudantes aprendam a avaliar a si próprios, bem como ajuda a perceber os processos de aprendizagem nos quais estão inseridos. Em tempo, posso dizer que em alguns momentos também há choro, mas geralmente não é choro de tristeza. Na maior parte das vezes, o choro significa a alegria do sucesso de um que se tornou possível pela responsabilidade de todos. A emoção é coletiva e nos dá a certeza de que compartilhar a responsabilidade é um dos caminhos para se alcançar a tão sonhada qualidade de ensino.

Claudio Marques da Silva Neto é diretor da EMEF Infante Dom Henrique, em São Paulo. Tem experiência em direitos humanos, formação docente, cultura escolar, indisciplina, violência e gênero. É mestre e doutorando em Educação pela Universidade de São Paulo (USP).

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