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06 de Março de 2019
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Campos de Experiência na Educação Infantil: papel do gestor é fundamental

GESTÃO ESCOLAR ouviu educadores e especialistas sobre como os Campos de Experiência podem se traduzir em novas propostas pedagógicas para a Educação Infantil

Por: Lucas Santana
Foto: Getty Images

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para a Educação Infantil estabelece em seu texto final os 5 Campos de Experiência que devem servir de referência para as propostas pedagógicas dos educadores e gestores escolares. Com os Campos, a formulação dos projetos político-pedagógicos e currículos deve levar em conta a formação integral da criança, normatizando as experiências fundamentais para que a criança aprenda e se desenvolva plenamente. “A BNCC aponta a criança como protagonista, exalta seu potencial para aprender a partir de experiências lúdicas e de interação. A criança é o centro do processo, um ser curioso, potente, capaz de desenvolver-se e aprender”, afirma a educadora Keli Patricia Luca, do time de autores da NOVA ESCOLA.

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“A Base traz pontos muito importantes para o cotidiano da Educação Infantil, como a própria concepção de infância”, diz Ana Teresa Almedia Marques, educadora e diretora de formação da Fundação Antonio Antonieta Cintra Gordinho (Faacg). Segundo ela, a BNCC traz a ideia de “criança ativa, curiosa, que busca encontrar e solucionar desafios”. “Uma criança que atua, que comunica. E isso está muito ligado aos Campos de Experiência, pois a escola precisa organizar propostas para que essa criança de fato experiencie”, avalia. 

Apresentada no final de 2017, a BNCC ainda deve percorrer um longo caminho até ser totalmente implementada nas escolas de Educação Infantil de todo o país. O prazo definido pelo governo é 2020. E o papel do gestor escolar como promotor dessa mudança é essencial. Para auxiliar os profissionais nessa caminhada, GESTÃO ESCOLAR buscou educadores e especialistas para apontar caminhos e ferramentas que podem facilitar a adoção dos Campos de Experiência na sala de aula.

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Enfrente o medo e a resistência iniciais

Toda mudança gera medo, insegurança e resistência. Com a chegada da BNCC para a Educação Infantil esse fenômeno não seria diferente. É comum que os docentes, de cara, não entendam a que veio o documento, em especial a seção que trata sobre os Campos de Experiência.

A coordenadora escolar Danielli Pereira da Silva Bragunci atua no Centro Municipal de Educação Infantil Pernalonga - Anexo, na cidade de Colatina (ES). Ela conta que sua primeira reação aos Campos de Experiência e à BNCC foi de estranhamento e medo, logo superados. “A partir do contato direto com o documento e das leituras do material, pude perceber a riqueza e as contribuições positivas para a organização do planejamento dos professores dessa etapa”, lembra Danielli.

Os docentes podem, ainda, confundir o que representa a BNCC e os Campos. “Uma questão que tenho escutado muito dos professores é que eles já fazem tudo o que está na BNCC”, relata Keli Patricia Luca, do Time de Autores. Para ela, os gestores devem atuar como facilitadores da compreensão da dimensão deste novo momento, incentivando os docentes a fazer diferente. “O que há de diferente é o convite ao novo dentro daquilo que já se faz. Nesse sentido, sugiro aprofundar e tirar o extraordinário do simples”, diz. “Não é preciso transformar a atividade em um megaevento. A boa proposta é aquela que faz sentido para a criança. A criança é nosso guia”.

A própria concepção de experiência ainda representa um ponto de interrogação para muitos professores, conforme explica Ana Teresa, da Faacg. Para ela, é necessário um novo entendimento do papel do educador, que rompe com a visão de criança passiva. “O professor precisa entrar no jogo com a criança, interagir com ela, estar por inteiro com ela. Os Campos de Experiência trazem esse novo papel”, afirma. Até mesmo o momento da troca de fraldas dos bebês pode ser encarada como uma nova experiência, segundo a educadora. “Você pode conversar com a criança: ‘Vou trocar sua fralda, agora vou passar pomada, estou te limpando, você está gostando, o que está observando, tem alguma coisa no teto?’. Isso é proporcionar uma experiência para a criança”, sugere. Para ela, esse é o desafio: compreender que todos os momentos da escola podem ser experiências de aprendizagem para a criança.

 

Promova uma visão sistêmica do processo de aprendizagem

É importante compreender e multiplicar a ideia de que os 5 pontos propostos nos Campos de Experiência, apesar de diferentes, são complementares e trabalham juntos a favor da formação da criança. “Na sala de aula vivenciamos os campos juntos e não de forma isolada. Por exemplo, no momento da alimentação podemos ter os campos ‘Eu, o Outro e Nós’ e também ‘Espaço, Tempo, Quantidades, Relações e Transformações’ ali, concomitantemente. Isso porque são nessas situações cotidianas, assim, de forma integrada, encaixadas nas práticas sociais, que a aprendizagem acontece de forma significativa para as crianças”, explica Keli Luca.

A diretora pedagógica Ana Teresa reforça que é necessária uma visão sistêmica do processo educativo para avançar na Educação Infantil. “Temos que considerar que a entrada ou o momento de refeição, por exemplo, são tão importantes quanto momentos com brinquedos ou contação de história”, reflete.

 

Invista na formação continuada dos docentes

Nas prefeituras municipais e secretarias dos estados, o poder público tem o dever de promover ações de formação a respeito da BNCC para a Educação Infantil. Esse compromisso já é assumido em diversas Secretarias de Educação pelo país. Nos municípios de Colatina (ES) e Não Me Toque (RS), por exemplo, o executivo promove eventos de formação. “Fizemos atividades de formação continuada no ano passado e neste ano já iniciamos a formação também”, diz a coordenadora Pedagógica Mariele Maria Bender, da Escola Municipal de Educação Infantil Infância Feliz, em Não Me Toque (RS). “Trocamos ideias, atividades entre colegas. Estamos fazendo o planejamento neste ano para que os professores de cada faixa etária o façam no mesmo dia da semana, para que ocorram essas trocas”, expõe Mariele.

Em Colatina (ES), o trabalho também segue firme. “Desde o processo de construção das versões da Base, a secretaria iniciou um trabalho voltado para a formação a fim de que tivéssemos um contato direto com o material, por meio de discussões e reflexões. Essa dinâmica foi fundamental para reduzir o receio de se trabalhar a partir dos Campos de Experiências”, conta a coordenadora Danielli.

Discussão, aliás, é o caminho, de acordo com Ana Teresa. É necessário aproveitar os conhecimentos que os professores já têm, com respeito pela experiência que cada um carrega. E, claro, propor que os docentes reflitam sobre cada ponto da base a partir dos seus contextos escolares. “Comece no passo a passo. Discuta em um momento de roda com eles. Um passo de cada vez”, sugere a educadora.  

A própria formação precisa ser revista. “É preciso rever a formação inicial, bem como os programas de capacitação continuada”, afirma Keli Luca. Somente assim, diz ela, será possível que professores e gestores possam se aprofundar na reflexão sobre a “concepção de criança, de professor, o uso dos espaços/materiais, trocar experiências entre escolas”. “E também ampliar as diferentes formas de fazer a partir da observação, registro e reflexão, de forma a alinhar, cada vez mais, as práticas à BNCC”, afirma.

 

Repense o planejamento e as propostas pedagógicas

Em Colatina (RS), a coordenadora Danielli nos mostra uma sequência didática organizada pelos professores da rede municipal chamada “Entre sapos e borboletas aprendemos sobre diversidade”. Permeando todos os Campos de Experiência, o professor inicia a sequência contando uma breve história ilustrada com colagens. Depois, propõe jogos, pesquisa, uma observação do espaço, cantos, atividades de lógica, filmes, tudo baseado na história do início da sequência. “Os campos de experiências não possuem fronteiras, um dialoga com o outro, permitem formas de explorar para aprender de maneira integral. Isso é o mais interessante dentro dessa proposta, pois defende a especificidade da Educação Infantil”, defende Danielli. E conclui: “Nossa escola passou a desenvolver um trabalho mais integrado, enxergando o conhecimento como um todo”.

Na escola de Nâo Me Toque (RS), coordenadores e professores aproveitaram a reunião de planejamento para organizar um tipo de tabela. “Delimitamos os dias da semana do nosso planejamento. Ao lado, colocamos os Campos de Experiência que cada atividade engloba”, explica Mariele. O objetivo é deixar as propostas sempre à vista, ao longo do tempo da semana, para que os Campos sejam implementados.

A própria concepção de tempo de atividade é alterada conforme a lógica dos Campos de Experiência. “Uma experiência nunca acontece em apenas um dia de forma estanque. Ela pode se repetir em outros dias e ser aprofundada pelos educadores”, propõe Ana Teresa. Ela defende que os docentes façam registros mais completos das atividades para que consigam retomar a proposta ao longo da semana ou do mês.

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