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Materiais adaptados ajudam a incluir

Recursos flexibilizados favorecem o aprendizado dos alunos com deficiência e alguns deles podem ser confeccionados na própria escola

POR:
Ana Gonzaga
Na EM José de Calazans, objetos com relevo são úteis aos alunos com deficiência visual e motora. Foto: Nidin Sanches/Nitro e Tamires Kopp
Jogo da velha Na EM José de Calazans, objetos com relevo são úteis aos alunos com deficiência visual e motora

Ampliar as potencialidades cognitivas do aluno com necessidades educacionais especiais (NEEs) é um dos grandes desafios do trabalho de inclusão na sala de aula. Mas, mesmo com poucos recursos, é possível oferecer boas alternativas para atender às peculiaridades dos educandos adaptando materiais pedagógicos. O uso deles permite que os alunos sejam capazes de se expressar, elaborar perguntas, resolver problemas e se tornar mais participativos, permitindo assim uma maior interação social com os colegas de classe.

Providenciar a aquisição ou confecção desses materiais, portanto, é uma maneira de a escola proporcionar uma melhoria no atendimento e promover processos de aprendizagem em igualdade de condições. "Além da economia de recursos, a produção interna facilita a adaptação às necessidades dos alunos que os utilizam", explica Viviane Vivaldine, coordenadora do Programa Especial de Capacitação, da Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência (Avape), de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.

Planejamento das aulas tem de prever atividades para todos os alunos

Na EM José de Calazans, em Belo Horizonte, todo aluno com deficiência, ao se matricular, passa por uma ampla avaliação por meio de conversas com a família e análise do histórico pessoal e escolar. A escola foi construída dentro de uma perspectiva inclusiva, com rampas e banheiros adaptados para quem tem dificuldade de locomoção, sendo referência no assunto na região. Atualmente, são 11 alunos com deficiências como paralisia cerebral e distrofia muscular. Eles estudam em salas regulares, compatíveis com a sua idade, o que facilita acompanhar o ritmo da turma. No contraturno, participam de atividades na sala de recursos e contam com o apoio de um estagiário - solicitado pelo gestor à Secretaria Municipal de Educação - que os auxilia durante as aulas, na alimentação e nos cuidados com a higiene.

Muitos dos materiais utilizados nas aulas foram produzidos na própria instituição. Garrafas e tampinhas de plástico servem para trabalhar conceitos de Matemática, como os de quantidade, com os deficientes visuais. Com o mesmo objetivo, os alunos com dificuldades motoras usam um jogo de memória - que é montado com rodinhas de madeira serrada de um cabo de vassoura - o que facilita o manuseio.

Recursos como esses também são úteis nas aulas de Educação Física. O bambolê com arroz e os dados com diversas texturas, por exemplo, são confeccionados para as crianças com deficiência visual. "Ao planejar as atividades, há uma preocupação para que ninguém fique de fora, independentemente do nível de habilidade", diz a professora de Educação Física Fernanda Pedrosa de Paula, que há nove anos trabalha com inclusão e, no ano passado, ganhou o Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10. Ela destaca o valor da integração dos alunos não só para eles mas também para toda a turma, já que estimula a capacidade de cooperação e a aceitação das diferenças.

O apoio de serviços de saúde é essencial para a inclusão

A lupa é um dos recursos usados por alunos com baixa visão da EE Clarisse Fecury. Foto: Odair Leal
Lente de ampliação A lupa é um dos recursos usados por alunos com baixa visão da EE Clarisse Fecury

Embora muitas escolas receiem receber um aluno com deficiência por achar que não darão um atendimento adequado, a matrícula é obrigatória segundo a Lei nº 7.853, regulamentada em 1999. O Censo Escolar mostra que entre 2009 e 2010 aumentou em 25% as matrículas desses estudantes em classes comuns do ensino regular - de 387 mil para 484 mil.

Mesmo sem ter uma estrutura adequada, a EE Clarisse Fecury, em Rio Branco, que atende os anos iniciais do Ensino Fundamental, recebeu em 2004 a primeira criança com deficiência. Hoje, são 25 e eles têm à disposição uma sala de recursos de tecnologia assistiva e diversos materiais que são comprados em lojas especializadas ou elaborados pelos professores desses ambientes, segundo as necessidades levantadas. O engrossador de lápis facilita o manuseio pelas crianças com dificuldades motoras. Já o caderno com linhas impressas de forma espaçada é indicado para quem tem baixa visão. "Tanto o material elaborado com alta tecnologia quanto esses, considerados de baixa tecnologia, são fundamentais para o aprendizado. Sem eles, uma parcela dos alunos seria prejudicada", explica a coordenadora pedagógica Iranildes Correa de Deus Saraiva. Ela era diretora na época de implantação do projeto de inclusão. Ao observar que os alunos com necessidades educacionais especiais (NEEs) não recebiam nenhum acompanhamento específico, Iranildes e sua equipe buscaram apoio de serviços junto ao governo. Profissionais do programa Saúde na Escola ajudaram a identificar o tipo de problema de cada aluno. A Gerência de Educação Especial garantiu a visita de um professor itinerante especializado no atendimento a deficientes - a parceria deu tão certo que, um ano depois, ele foi incorporado ao quadro docente. "Embora a escola precise de melhorias no quesito arquitetônico e mobiliário e enfrente o problema de rotatividade dos professores, fazemos um trabalho integrado na sala de aula", afirma Iranildes. Ela reforça a relevância de prever as ações de inclusão no projeto político pedagógico (PPP) da escola. "O nosso documento aponta como missão a construção de uma Educação inclusiva e a garantia de acesso, da permanência prazerosa e de um ensino de qualidade."

Como adaptar alguns objetos

Materiasi fáceis de fazer. Fotos: Nidin Sanches/Nitro, Odair Leal e Tamires Kopp

Com materiais simples, é possível adaptar alguns objetos e proporcionar grande benefício aos alunos:

- Livros com marcadores Colocar clipes ou velcro (desses usados nos pés de móveis) entre as páginas ajuda a manipulação por quem tem dificuldades motoras.

- Cadernos com linhas escurecidas Usar uma caneta ou hidrocor para reforçar as linhas das páginas torna a escrita mais fácil das crianças com capacidade visual reduzida.

- Objetos sonoros Inserir guizos ou grãos dentro de bambolês ou bolas os deixa perceptíveis aos deficientes visuais.

- Lápis com engrossador Encaixar uma bola de borracha na parte de trás do lápis, ou envolvê-lo com espuma, aumenta a sua circunferência e facilita o uso para quem tem dificuldade motora.

- Alfabeto ampliado Colar as letras sobre tampas de garrafa, caixas de vídeo ou de fósforo, deixa as peças mais altas e fáceis de visualizar para quem possui baixa visão.

Recursos fazem com que alunos participem das aulas de forma efetiva

Materiais fáceis de manusear. Foto: Nidin Sanches/Nitro e Tamires Kopp
A prancha de madeira inclinada ajuda os alunos com dificuldade motora nas brincadeiras, leituras e realização de tarefas. Ao tocar as peças, o deficiente visual sabe quais têm a mesma textura no jogo de memória, assim como os números iguais no dominó.

Na EMEI Taufic Germano, em Cachoeira do Sul, a 200 quilômetros de Porto Alegre, o uso de materiais, como o alfabeto com letras ampliadas, está presente nas aulas regulares e naquelas realizadas na sala de recursos - destinadas ao atendimento, atualmente, de seis estudantes com deficiências como a múltipla, auditiva e física. "A inclusão é um processo de reflexão, ação e transformação, que exige o comprometimento de todos", diz a professora da sala de recursos Cleusa Haetinger. Para a fisioterapeuta e diretora da Assistiva Tecnologia e Educação, em Porto Alegre, Rita Bersch, o uso de recursos é essencial. "Eles fazem com que o aluno com deficiência deixe de ser espectador e se torne ator na construção do conhecimento que ocorre nas interações do ambiente escolar."