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Uma nova edição do Pisa no Brasil: o que ela vai nos apontar?

Ciências volta a entrar em pauta na prova que acontece em maio de 2015

por:
MB
Maria do Carmo Brant

Foto: Arquivo pessoal

Maria do Carmo Brant é superintendente educacional da Abramundo

O Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, em inglês) é uma avaliação comparada desenvolvida pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em 2012, participaram 65 países com uma amostra de 510 mil alunos. No Brasil, que tem a coordenação realizada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), participaram 18.589 estudantes de todos os estados e do Distrito Federal.

Aplicada a jovens na faixa dos 15 anos, essa avaliação pressupõe o término da escolaridade básica obrigatória na maioria dos países. No caso do Brasil, é o correspondente ao Ensino Fundamental. O Pisa é realizado a cada três anos, tendo em cada edição um foco entre as três áreas avaliadas: Leitura, Matemática e Ciências.

Em 2015, o principal tema será Ciências. A aplicação ocorre no mês de maio e vai envolver, aproximadamente, 33 mil estudantes nascidos no ano de 1999, matriculados a partir do 7º ano, distribuídos em 965 escolas. Também serão coletadas informações contextuais por meio de três tipos de questionários: do Aluno, do Professor e da Escola.

Em avaliações anteriores, o Brasil obteve em Ciências o 59° lugar do ranking com 65 países. Nosso país alcançou a pontuação de 405 pontos nessa disciplina e a média das nações da OCDE foi de 501 pontos. Mas o que mais chama atenção é que 55,3% dos alunos brasileiros alcança apenas o nível 1 de conhecimento, ou seja, são capazes de aplicar o que sabem em poucas situações do cotidiano, além de compreender explicações científicas que são explícitas em relação às evidências. Possuem dificuldades para entender percentuais, frações ou gráficos. Só 0,3% dos estudantes conseguiram demonstrar alto desempenho na área, incluindo habilidades como "identificar, explicar e aplicar conhecimento científico em uma variedade de situações complexas da vida".

Tanto a Prova Brasil como o Pisa atestam um baixo desempenho dos nossos alunos nas áreas avaliadas. Não só a média geral é baixa como muitos dos avaliados estão abaixo do nível adequado. Mas a análise longitudinal dessas avaliações permite observar uma evolução significativa nos resultados dos estudantes nos itens analisados pelo Pisa.

No relatório elaborado com os dados brasileiros, a OCDE destacou a evolução do país em Matemática entre 2003 e 2012, em leitura entre 2000 e 2012 e em Ciências entre 2006 e 2012. A pontuação em Matemática aumentou em média 4,1 pontos por ano, passando de 356 em 2003 para 391 em 2012. A pontuação em leitura cresceu, desde 2000, a uma média de 1,2 pontos por ano e, desde 2006, a pontuação em Ciências cresce a uma média de 2,3 pontos por ano, partindo de 390. Embora possamos constatar um avanço contínuo, nos três casos o país permanece abaixo da média das demais nações da OCDE.

Há ao menos quatro fatores que podem explicar este baixo desempenho:

1. Ainda é recente o processo de universalização do ingresso de crianças e adolescentes no Ensino Fundamental. Em 2003, 65% dos jovens de 15 anos estavam na escola. Em 2012, a taxa passou para 78% e grande parte desses novos alunos é oriunda de grupos sociais com maiores déficits de renda. É sempre bom lembrar que quase metade da população brasileira (45,5%) com 25 anos ou mais não possui o Ensino Fundamental completo (PNAD/2012). Também é necessário considerar as altas taxas de defasagem idade-série, que comprometem nosso desempenho em relação ao de jovens da mesma idade em outros países.

2. O currículo nacional tem deficiências largamente conhecidas para o Ensino Fundamental e essa etapa ainda sofre por carga horária reduzida, formação docente precária e baixos salários. Há uma enorme demanda para que a Educação pública renove seus currículos e intencionalidades, de forma a corresponder às necessidades dos novos tempos. Sobretudo, para derrubar as traves da desigualdade social que reduzem as possibilidades de grande parte dos brasileiros de caminhar com maior autonomia, pertencimento e dignidade. O atual projeto educacional está cada vez mais distante das demandas do século 21 e de suas sociedades complexas marcadas pela inovação científica, tecnológica e informacional. Sem ruptura com o velho modelo, dificilmente conquistaremos maior sucesso.

3. O ensino de Ciências tem recebido pouca atenção. Está claro que a FALTA DE PRIORIDADE dada à alfabetização científica no Ensino Fundamental compromete a apropriação da ciência e sua aplicação na vida cotidiana. Desde meados da década de 90, quando se buscou decisivamente a universalização dessa etapa, o foco do ensino concentrou-se na Língua Portuguesa e na Matemática. Já é hora de ampliar essa agenda e mostrar às crianças que Ciências, Física, Química e Biologia são temas importantes para desenvolver a alfabetização científica, bem como buscar soluções para os problemas reais do dia a dia. A recente pesquisa realizada pelo Instituto Abramundo, em parceria com o Instituto Paulo Montenegro (vinculado ao Ibope) e a ONG Ação Educativa sobre o letramento científico existente na população de 15 a 40 anos, com ao menos quatro anos de escolaridade básica, residentes nas nove regiões metropolitanas do país, sinalizou quanto esse conhecimento tem sido sobejamente relegado na Educação Básica. Apenas cinco em cada 100 pessoas, classificadas no nível 4 (Letramento científico proficiente), efetivamente compreendem a terminologia científica e aplicam conceitos da ciência para interpretar a realidade que os cercam, para além de aplicações restritas ao cotidiano. No menor nível da escala, o nível 1 (Letramento não-científico), encontra-se 16% da população entre 15 e 40 anos, cujas habilidades se limitam à leitura de informações apresentadas de forma explícita e em contextos previamente conhecidos, sem contribuição de noções científicas para apoiar a compreensão da realidade. Esse contexto reforça as desigualdades socioeconômicas, comprometendo o exercício da cidadania e a inserção produtiva de grande parte de nossa população.

4. O Pisa é um teste padronizado aplicado em larga escala. A padronização de testes avaliativos não considera disparidades regionais e culturais. No caso brasileiro, é necessário considerar a existência de uma realidade multicultural e desigualdades regionais expressivas. Essa é uma questão importante a ser reconhecida e enfrentada caso queiramos avançar juntos rumo a uma avaliação conjunta assertiva.

Em síntese, o principal é decidir se rompemos com o status quo de nosso projeto educacional ou manteremos cada vez mais a margem dos avanços científicos e tecnológicos submetidos aos ditames dos países desenvolvidos. Além disso, precisamos ter sempre claro que o resultado da avaliação reflete o aprendizado dos meninos e das meninas que estamos formando. Portanto, é no aprimoramento do conhecimento deles - e, consequentemente, de sua atuação na sociedade - que precisamos nos focar, mais do que em uma nota ou índice de difícil compreensão.

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