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Assim não dá! Dificultar o acesso aos dados dos alunos

A consulta a informações e documentos pode ajudar no aprimoramento das práticas pedagógicas

por:
KP
Karina Padial
Assim não dá! Dificultar o acesso aos dados dos alunos. Raphael Salimena

Antes de começar o ano letivo, a equipe gestora se reúne para definir que criança ficará em qual turma e quem assumirá cada classe. Montado o quebra-cabeça das atribuições de aula, imprime-se uma lista com o nome dos estudantes, que é entregue para os docentes durante a semana de planejamento. Assim, a questão é considerada resolvida. Mas há, aí, um problema. O fato de os professores saberem o nome dos alunos não significa que eles passaram a conhecê-los.

"Em muitas escolas, os registros realizados ao longo do ano anterior nem sequer chegam ao conhecimento dos educadores; ficam trancados nas secretarias e só os profissionais que trabalham ali podem acessá-los", afirma Joe Garcia, da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Para Cristiane de Castro Ramos Abud, doutoranda em Educação na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e autora do artigo A Função do Secretário Escolar na Contemporaneidade: Entre Memórias e Arquivos, todos os membros da instituição devem ter acesso à documentação e tudo precisa estar identificado e organizado de maneira a facilitar a consulta.

Esse arquivo pode enriquecer a compreensão das equipes sobre as turmas e possibilitar a elaboração de diagnósticos mais completos que favorecem a reflexão e o aprimoramento das práticas pedagógicas. Por exemplo, o histórico escolar permite saber quais alunos já interromperam os estudos, quantos repetiram o ano anterior e, portanto, quantos estão em distorção idade série. Dessa maneira, é possível estruturar ações de correção de fluxo e de apoio às dificuldades desses alunos.

Segundo Garcia, a socialização das informações também colabora na hora de discutir a relação com as famílias e de planejar iniciativas mais efetivas de acolhimento. Além de ter acesso ao nome dos responsáveis pelos estudantes - o que é simples e importante na hora de estabelecer um vínculo com eles -, ao conhecer outros pontos revelados pela documentação, a escola consegue planejar estratégias que beneficiam o processo de ensino e aprendizagem. O grau de instrução dos pais ajuda a definir a maneira de comunicação com eles, uma vez que cartazes e bilhetes podem não ser efetivos quando os índices de analfabetismo forem altos. Já ao saber o endereço da residência e o horário de trabalho, é possível entender a dificuldade deles comparecerem às reuniões por causa da distância e, então, pensar em alternativas para realizar alguns encontros em locais mais próximos e em horários adequados aos familiares.

No CEI Jardim Rodolfo Pirani, em São Paulo, as fichas de matrícula trazem detalhes como as crianças que ainda usam fraldas, o que ajuda a planejar as intervenções necessárias e o momento mais adequado para realizar o desfralde. Outras informações como com quem e em qual cômodo elas dormem quando estão em casa também constam no documento. Dessa maneira, a equipe consegue compreender melhor alguns hábitos e atitudes dos pequenos.

"Cada criança tem um prontuário individual que fica disponível para as professoras consultarem e atualizarem sempre que necessário. Essa revisita constante é fundamental porque nem sempre os responsáveis se sentem à vontade em fornecer todos os dados no momento de preencher o formulário. Então, conforme as educadoras vão obtendo novos relatos na comunicação diária com as famílias, elas vão acrescentando as informações", afirma a diretora, Maria Goreti Marinho. Segundo ela, outra ação importante é rever todo ano a ficha de matrícula, junto com os docentes, para identificar se há questões que podem contribuir para o planejamento e que, portanto, deveriam ser acrescentadas.

Maura Barbosa, consultora de GESTÃO ESCOLAR, defende a prática, mas alerta para o cuidado que se deve ter no tratamento desses dados. "É preciso orientar os professores de tal maneira que as informações não se transformem em rótulos ou estigmas. Falas como ‘estou em uma sala só com repetentes’ ou ‘não vou nem perder meu tempo com esses pais que pouco se importam com a vida escolar dos seus filhos’ revelam o uso inadequado da documentação e devem ser problematizadas e discutidas pela equipe gestora", diz. Para Sandra Dedeschi, mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista em relações interpessoais, conhecer as características do aluno e da família deve servir justamente para os educadores compreenderem e respeitarem tais características e planejar ações com base nelas, assegurando os avanços de todos e de cada um.

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