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Parcerias que funcionam

Unir-se a comunidade, empresas privadas e públicas, ONGs e universidades ajuda a escola na missão de ensinar. Saiba o que é preciso fazer antes, durante e depois das parceiras

por:
GH
Gustavo Heidrich
Ilustração: Anna Luiza Aragão

Para montar um quebra-cabeças, é preciso achar a posição exata para que peças de diferentes formatos se encaixem. O esforço exige raciocínio, paciência e uma visão do todo para chegar ao resultado pretendido. Uma escola que busca parceiros para garantir que todos os alunos aprendam também tem de descobrir os pontos de encaixe que levem ao aperfeiçoamento da sua rede de ensino e aprendizagem. "Antes de tudo, a primeira parceria é entre o gestor e suas equipes. Todos têm de estar em sintonia quanto aos propósitos e objetivos da escola", afirma Maria das Graças Fernandes Branco, supervisora de ensino e mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Essa organização interna e convergência de intenções materializa-se no projeto político-pedagógico (PPP). "Na elaboração coletiva desse documento, a equipe prevê as ações institucionais e pedagógicas e em que pontos as parcerias podem ajudar e como", explica Sálua Guimarães, orientadora pedagógica e mestre em Educação pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), na Argentina.

Com isso, a escola está preparada para montar seu quebra-cabeças com base nas peças disponíveis no entorno. Nesta reportagem, você vai conhecer os princípios das parcerias eficazes e como extrair o melhor delas. Vai, ainda, ler as experiências de cinco escolas que tiveram êxito ao aproximar-se da sua comunidade, de empresas públicas e privadas, das universidades e de organizações não governamentais (ONGs).

No início, a escola era refém do interesse das empresas

Ilustração: Anna Luiza Aragão

A década de 1990 marcou o início da intensificação das parcerias público-privadas. Com o aumento do acesso às salas de aulas e da cobrança por qualidade do ensino público, a sociedade civil começou a se mobilizar: surgiram ONGs ligadas à Educação e empresas passaram a direcionar investimentos para essa área como parte de seu trabalho social.

"No princípio, a iniciativa privada tinha apenas a intenção de dar dinheiro ou oferecer o que ela mesma julgava importante - como projetos de alcance limitado (em áreas como Educação Ambiental, protagonismo juvenil e gestão por resultados, entre outras). Muitas vezes, até colocando profissionais para substituir professores e gestores em suas funções. Por outro lado, as escolas, não raro carentes de recursos e de capacidade para diagnosticar suas reais necessidades, recebiam qualquer ajuda externa sem critério", lembra Maria Alice Setúbal, fundadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), em São Paulo. "Essa fórmula assistencialista, que existe até hoje, leva as escolas a ficar apenas como receptoras de recursos e, por isso, reféns dos parceiros, sem conhecimento nem autonomia para andar com as próprias pernas", completa Roberta Panico, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac, em São Paulo.

A boa notícia é que, nos últimos anos, essa perspectiva vem mudando. Empresas e ONGs se mostram mais abertas a investir em projetos focados em melhorar o desempenho dos alunos. "Até 2005, nosso investimento em Educação - que fazemos há mais de 15 anos - era por meio de editais: as escolas inscreviam projetos, havia uma seleção e os recursos eram liberados. Contudo, percebemos a necessidade de ações mais amplas e de longo prazo e contratamos uma equipe pedagógica para estarmos mais próximos dos parceiros e acompanhá-los enquanto duram os programas financiados", conta Maria Lucia Guardias, gerente da área de Educação e Sociedade da Natura, empresa de cosméticos que atua em 250 municípios com o projeto Crer para Ver.

O gestor escolar tem de estar no comando das iniciativas

Ilustração: Anna Luiza Aragão

Parcerias de longo prazo exigem que a equipe gestora da escola esteja preparada para ser protagonista. E isso significa ter clareza sobre as necessidades do grupo, avaliar periodicamente os resultados e montar uma estrutura de relacionamento com o parceiro (veja o quadro com as ações de um gestor protagonista abaixo).

Para ser protagonista

Dicas de Marcos Antônio Biffi, professor da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, Grande São Paulo, e de Emerson Morais, gerente-executivo do Sebrae.
1. Levante dados Entreviste a comunidade e analise o desempenho dos alunos para definir problemas, prioridades e objetivos.
2. Elabore um projeto Escreva uma proposta com as metas, os custos e as contrapartidas que a escola oferece para o possível parceiro.
3. Escolha o parceiro certo Busque entidades próximas com experiência em educação. Antes de marcar a reunião, conheça a missão delas.
4. Prepare-se para o encontro Seja claro nas intenções do projeto e evite o "pedagogês".
5. Invista na avaliação Explicite como serão medidos e divulgados os resultados.
6. Tenha iniciativa Preveja os possíveis problemas e tenha planos para resolvê-los.

O ideal é que a escola faça o diagnóstico de suas necessidades e inclua no projeto político-pedagógico quais ações necessitam de ajuda externa. Com conhecimento sobre aonde se quer chegar, fica mais fácil para o candidato a parceiro decidir se quer colaborar. A EMEF Heitor Villa-Lobos, em Porto Alegre, precisava de recursos para incrementar a orquestra de flautas criada pela professora de música Cecília Silveira. A receita da venda de CDs e das apresentações financia parte do projeto de educação musical da escola, como prevê o PPP. Mas quem poderia se interessar em relacionar sua marca a eventos culturais? A gestora não pensou pequeno e conseguiu o apoio da Petrobras, uma das maiores empresas estatais brasileiras (leia abaixo sobre a experiência
da escola)
.

De olho nos resultados
Orquestra profissional

Foto: Marcelo Curia

Há 18 anos, quando chegou à EMEF Heitor Villa-Lobos, em Porto Alegre, a professora Cecília Silveira tornou realidade as aulas de música previstas no currículo, que nunca tinham acontecido. O interesse dos alunos foi tão grande que ela passou a oferecer oficinas no contraturno. Assim surgiu a Orquestra Villa-Lobos. "Aumentamos o diálogo entre as atividades musicais e a sala de aula e melhoramos o envolvimento e a aprendizagem", garante. Mas o custo era alto. Foi quando ela procurou bancos e empresas dipostos a custear o projeto. Conseguiu que o Santader bancasse a produção de CDs e venceu um edital de incentivo cultural da Petrobras que patrocina as apresentações da orquestra em teatros e outras escolas e a compra de instrumentos. Hoje são 300 crianças da unidade e de escolas vizinhas envolvidas na orquestra e em oficinas. Cecília fez até um curso de Gestão de Projetos Sociais e aprendeu os trâmites para se inscrever em outros editais públicos.

Ações e contrapartidas devem focar a aprendizagem

Ilustração: Anna Luiza Aragão

Entre outras coisas, esse trabalho funciona bem porque o parceiro não busca apenas visibilidade para seus produtos e serviços, preocupando-se com uma troca efetiva com a escola (saiba o que evitar nas parcerias no primeiro quadro). O ideal é que tanto a ação da entidade parceira como a contrapartida estejam relacionadas à aprendizagem. Foi o que fez a EM Pará, no Rio de Janeiro. As gestoras da escola procuraram o hospital ao lado da unidade e, em troca de palestras sobre higiene e saúde, ministradas pelos médicos aos alunos, ofereceram apresentações da oficina de teatro realizada pelos estudantes no contraturno. As crianças montam espetáculos com temáticas sobre saúde e prevenção de doenças trabalhadas em sala de aula para os pacientes que esperam atendimento (leia mais no último quadro).

Os erros mais comuns

Alguns equívocos na postura do gestor e na implementação das ações podem comprometer o trabalho de parceria. Por isso, evite:
- Deixar-se levar pelo deslumbramento quando o parceiro oferece verbas para reformas físicas sem associá-las à melhoria da aprendizagem. Isso, em geral, só promove mudanças externas.
- Permitir que apenas o parceiro diga o que quer fazer na escola.
- Aceitar qualquer tipo de ajuda que não esteja prevista no projeto político-pedagógico.
- Priorizar a visibilidade do trabalho social do parceiro.
- Tolerar contrapartidas que incluam a comercialização ou a propaganda de produtos e serviços dentro da escola.
- Consentir com serviços e insumos de má qualidade vindos do parceiro.

Contrapartida cultural
Palestras de saúde x teatro

Foto: Gilvan Barreto

Os alunos da EM Pará, no Rio de Janeiro, tinham pouca orientação sobre hábitos de higiene. A diretora, Rosa Maria de Oliveira, decidiu que eles deveriam receber informações sobre esses assuntos de profissionais da área de saúde. Ela procurou a administração do Hospital Municipal Carmela Dutra, vizinho da unidade, e propôs que médicos fizessem palestras na escola. Por seu lado, o hospital também tinha problemas: o tempo de espera dos pacientes para o atendimento costumava ser longo e cansativo. Cláudia ofereceu a solução: os estudantes que fazem teatro na escola poderiam apresentar peças no contraturno. A Pará também mantém parceria com a ONG Nova América, que oferece cursos para quem trabalha em áreas de risco. "O mais importante é manter um diálogo constante com o parceiro e ter um espaço de discussão que aponte para onde a escola quer ir", afirma Cláudia Breves, coordenadora pedagógica da unidade.

Metas claras e instrumentos de avaliação são fundamentais

Ilustração: Anna Luiza Aragão

Depois de combinar e alinhar as metas de ambas as partes, é preciso decidir como elas serão avaliadas. No caso de parcerias pedagógicas, uma solução possível é usar índices e avaliações externas (por exemplo, melhorar o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb, e elevar a nota de Língua Portuguesa dos alunos de 9º ano da escola na Prova Brasil ou na avaliação feita pela secretaria local). No caso de melhorias físicas, administrativas ou de outra natureza, a opinião da comunidade tem um peso importante. "O fundamental é que a meta esteja clara para ambos os lados e existam instrumentos eficientes para acompanhá-la", afirma Joelma Pires, professora do Núcleo de Política e Gestão da Educação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). A EE Luis Gonzaga Travassos da Rosa, em São Paulo, decidiu com a empresa de tecnologia CPM Braxis que era preciso aumentar a nota da instituição nas avaliações externas e, para isso, as duas aliaram esforços (saiba mais no quadro abaixo).

Alinhando metas
Mudar só a estrutura não adianta

Foto: Raquel do Espirito Santo

Em 2005, a EE Luis Gonzaga Travassos da Rosa, em São Paulo, tinha carteiras e janelas quebradas, além do baixo desempenho dos alunos. A empresa de tecnologia CPM Braxis se ofereceu para investir em infraestrutura, mas a ação não foi suficiente. O projeto atual de parceria apostou na formação da equipe gestora e dos professores. O coordenador pedagógico Celso Teixeira e a pedagoga Cibeli Castanho (foto) estão envolvidos no projeto - ele tem aulas de estratégias formativas e ela dá suporte à formação. Há, ainda, reforço em Matemática e Língua Portuguesa para os estudantes. Na divulgação do último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), eles comemoraram: a escola teve nota 5 para os anos iniciais do Ensino Fundamental e 4,2 para os finais - índices previstos por eles para 2013. A iniciativa deu origem à ONG Parceiros da Educação, que intermedia parcerias públicas entre empresas e 97 escolas.

Acompanhamento constante e comunicação transparente

É imprescindível que todo o processo seja conduzido com transparência, comunicando periodicamente a comunidade sobre cada etapa, os avanços, os entraves e o replanejamento. "Muitas parcerias fracassam porque professores, pais e alunos são surpreendidos por iniciativas que surgem de repente e depois não há mais notícias sobre elas", acredita Ivanete Lago, professora de Didática e Avaliação Escolar do Centro Universitário de Brusque, a 99 quilômetros de Florianópolis. Reuniões de pais, da Associação de Pais e Mestres (APM) e do conselho escolar são fóruns importantes de debate sobre o desenvolvimento das parcerias e seus resultados.

Mesmo com o monitoramento do projeto e a transparência das ações, nenhuma parceria é sempre um mar de rosas. "É preciso estar preparado para lidar com conflitos e encontrar soluções em meio à diversidade", afirma Beatriz Azeredo, diretora do Instituto Desiderata, que há seis anos investe em programas de Educação na rede municipal do Rio de Janeiro. Relatórios periódicos são eficientes, mas não substituem uma boa conversa entre os interlocutores para alinhar as ideias. Geralmente, o diretor ou o coordenador pedagógico assume esse papel, enquanto a empresa ou a ONG designa uma pessoa responsável para acompanhar o projeto. "Os gestores têm de incentivar o empresário, o formador da universidade ou o diretor da ONG a ir até a escola e conversar com a comunidade", diz Maria das Graças Branco, da Unicamp.

A interação constante entre a equipe da EMEF Campos Salles, em São Paulo, e o Instituto Esporte Escola (IEE) é tamanha que os monitores da ONG participam dos encontros de formação da escola. Eles foram decisivos na adaptação da unidade para receber as crianças com 6 anos a partir da implantação do Ensino Fundamental de nove anos em São Paulo (veja mais no quadro abaixo).

Aula no contraturno
Muito além dos esportes

Foto: Marina Piedade

A professora Adriana Chow (foto) teve dificuldade na hora de receber os alunos de 6 anos ao adaptar o Ensino Fundamental para nove anos na EMEF Campos Salles, em São Paulo. Uma das principais questões era o que fazer nas aulas de Educação Física: as atividades realizadas para as crianças de 7 e 8 anos pareciam exageradas para os menores e as brincadeiras da Educação Infantil já não eram tão atraentes. A equipe pediu ajuda ao Instituto Esporte Educação (IEE), que desde 2006 atua na escola oferecendo aulas no contraturno. "Temos um guia de práticas pedagógicas esportivas elaborado pelos pesquisadores do IEE para cada faixa etária", explica Allan Aparecido da Silva (foto), professor de Educação Física contratado pelo IEE. "Os monitores do instituto participam dos horários de formação, dão suporte às aulas regulares de Educação Física e ainda fazem um trabalho com a gestão na orientação dos alunos com problemas de comportamento", conta a vice-diretora da Campos Salles, Maria Helena Muniz.

Manter o foco mesmo quando a iniciativa vem de fora

Há quem diga que as escolas deveriam rejeitar todas as ofertas que não surgiram por iniciativa própria, mas isso está muito longe de ser verdade. Basta seguir os conselhos dados até aqui e avaliar a proposta para saber se ela é adequada. Caso não seja, não tenha medo de recusá-la, apresentando a justificativa, é claro. Até porque a maior parte dos acordos entre escolas e instituições nasce mesmo dessa forma. É o que comprova pesquisa do Instituto Desiderata, feita em 2009 na rede municipal do Rio de Janeiro, que mostrou que em 60% das escolas que têm parcerias a iniciativa para o início da colaboração não foi das unidades.

No Nordeste, um projeto da Universidade Federal da Bahia (UFBA) prova que mesmo as parcerias que não partem da escola podem ser muito úteis. Com um déficit de 70 mil docentes, o estado precisa formar novos professores e capacitar os que já estão em atividade. "Firmamos acordo com 17 municípios da zona rural para formar professores de Ensino Fundamental e Médio", explica Celi Zulke Taffarel, diretora da Faculdade de Educação da UFBA (leia mais no quadro abaixo).

Auxílio que vem de longe
A universidade vai a campo

Foto: Marcio Lima

A situação do ensino na zona rural da Bahia sempre tirou o sono de Celi Zulke Taffarel (foto). O déficit de professores no campo chega a 70 mil. Hoje na diretoria da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ela está à frente de um programa que leva a universidade "a campo e ao campo". A cada seis meses, os professores das escolas rurais vão ao campus da UFBA, na capital, para ter aulas e - de dois em dois meses -, os acadêmicos visitam as escolas, espalhadas por 17 municípios, para acompanhar a prática dos docentes e oferecer atividades de formação. Ao fim de quatro anos, eles recebem o diploma de licenciatura em Educação do Campo. "Fiz apenas o Magistério e, se não fosse a parceria entre a UFBA e a secretaria da minha cidade, seria difícil cursar uma graduação. Hoje sou professora de Educação Infantil, mas, quando me formar, daqui a dois anos, poderei dar aulas no Ensino Fundamental e Médio", orgulha-se a professora Cleidiane Mauricia dos Santos, da EM Elmano Castro, em Amargosa, a 235 quilômetros de Salvador.

A parceria não substitui, mas complementa e ajuda a gestão

Ilustração: Anna Luiza Aragão

Quando feitas com intencionalidade, as parcerias só têm a somar. "O parceiro nunca substitui o estado. Ele deve sempre complementar e apoiar ações e jamais se sobrepor. A Educação é um direito público, mas, dentro da perspectiva de uma gestão democrática, que reúne comunidade e sociedade, as parcerias encontram seu espaço", acredita Christiana Saldanha, coordenadora de projetos da Fundação Vale, que financia ações educacionais nos municípios em que a mineradora atua. Tornando-se protagonistas nesse processo, os gestores reforçam seu papel de liderança, distribuem o trabalho de forma mais eficiente e têm aliados na busca pelos resultados. No fim, é como o quebra-cabeças: uma vez montado, forma uma imagem coerente e significativa, bem diferente do caos das peças separadas.

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