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Telma Vinha é professora de Psicologia Educacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Telma Vinha É professora de Psicologia Educacional da Universidade de Campinas (Unicamp)
17 de Maio de 2017 Imprimir
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Uma série polêmica abre caminho para o diálogo

Julgamos, negamos e minimizamos a angústia, fazendo com que os adolescentes se sintam ainda pior

Por: Telma Vinha

A adolescente Hannah se suicida e deixa 13 fitas cassete. Elas chegam postumamente para colegas e outras pessoas que ela acredita serem responsáveis pelo seu ato derradeiro. A série 13 Reasons Why (Os 13 porquês, em tradução livre), da Netflix, tem gerado discussão. É uma trama dura e triste que retrata a convivência conflituosa de uma adolescente com seus pares, numa fase frágil da vida. Ao longo dos capítulos se identifica o papel de cada personagem (alvos, autores e espectadores) nas violências veladas que ocorrem na escola e em outros espaços e que podem ter consequências devastadoras. Mostra também que o bullying ocorre longe da observação dos adultos e aponta para a necessidade do olhar atento a pequenas, mas importantes, manifestações.

Muitas polêmicas giram em torno da série. Uma delas é a de que serviria de inspiração para o suicídio. Não há consenso sobre isso entre os pesquisadores. Diversos estudos apontam para a importância de se separar a vida "real" da "simbólica" dos filmes, games e outros. Não há relação direta entre assistir a um filme e se suicidar. O aumento das ligações para os Centros de Valorização da Vida (CVV) podem ser pedidos de ajuda e escuta, não de tentativa de acabar com a vida. Indicam também que esse apoio está mais conhecido entre os jovens.

Outra crítica é que a série romancearia o suicídio. Se fosse assim, filmes de criminosos, drogados e estupradores também o fazem. No mundo todo, há um aumento do suicídio. E, no Brasil, é uma das principais causas de morte de jovens. Como a série trata de forma criativa e atual esse tema, a escola pode utilizá-la como instrumento de debate, abordando com alunos e professores questões como: "Por que as pessoas se matam? Que ações contribuem para piorar ou ajudar? Como Hannah se sentia? Como se sentiam os colegas Justin, Jessica ou Alex para praticar as ações mostradas? Como era a convivência entre eles? De que forma a personagem principal pediu ajuda? Como se nota que alguém está deprimido?".

Não falar sobre um assunto doloroso não evita o problema. Pelo contrário, conversar com propriedade e respeito sobre ele aumenta as chances de prevenção e da pessoa receber cuidados da escola e dos amigos. Vale debater o sentido da vida, os sonhos, a "felicidade" das redes sociais, a tristeza e a superação. Os adolescentes são inábeis para pedir ajuda e, não raro, seus pedidos passam despercebidos ou são confundidos com agressão, arrogância ou timidez. Há também a vergonha de se mostrar triste numa sociedade que só incentiva a alegria. Não temos o olhar atento ou a escuta cuidadosa, que acolhe os sentimentos do outro.

Julgamos, negamos e minimizamos a angústia, fazendo com que eles se sintam ainda pior. Em vez de sermos contra, podemos ver na série uma porta para acessar um lado áspero da vida adolescente que podemos até negar, mas existe. 

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