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Qual o papel do coordenador na alfabetização dos alunos?

POR:
Joice Lamb
Foto:  Cesar Brustolin/SMCS

Passando os olhos pelas turmas de alfabetização da sua escola, o que você vê? A maior parte dos alunos está alfabetizada até os oito anos como se espera?

Alguns anos atrás, essa mesma pergunta foi feita na nossa escola e a resposta não foi nem um pouco satisfatória. Tínhamos um montão de alunos não totalmente alfabetizados batendo nas portas do 4º ano e uma fala generalizada de que a culpa era da progressão continuada nos três primeiros anos. Como não dava para reprovar no 1º ano, também não dava para alfabetizar depois?

O cenário não era promissor e não tínhamos muita ideia de como começar a organizar a bagunça, mas tínhamos a certeza de que era nossa, da gestão da escola, a responsabilidade de procurar possibilidades para resolver a situação que se configurava claramente como um problema.

Vou partilhar com vocês as medidas que desenvolvemos para tentar encontrar a solução para isso, considerando que possam levar um pouco de luz para quem estiver passando pela mesma situação.

Era o início da nossa gestão e estávamos conhecendo os professores, os alunos e os índices da escola. Sabíamos que nos anos anteriores houve uma taxa de 13% de reprovação na alfabetização e que essa reprovação se repetia nos anos subsequentes, ou seja, ela não é um fator de qualidade na Educação, visto que muitos dos alunos que não reprovavam no 2º ano, acabavam por reprovar mais adiante, alguns repetidas vezes.

Nossa primeira ação foi estabelecer algum tipo de índice interno que pudesse ser monitorado e acompanhado periodicamente e estabelecesse algum padrão para comparação. Optamos por realizar testes de níveis de escrita com todo os alunos de 1º ao 3º ano. Utilizamos como data base o mês de maio, quando é realizado o primeiro conselho de classe. Obtivemos muitos dados, mas o mais significativo foi o do 2º ano, porque 51% dos alunos estava no nível pré-silábico e 35% no nível silábico. Ou seja, depois de cursar o 1º ano e um terço do 2º ano, mais da metade dos alunos estava muito longe de estar alfabetizados. Por isso, no final do 3º ano, muitos ainda engatinhavam na leitura e na escrita.

Mesmo que esses dados não pudessem abarcar toda a complexidade das turmas de alfabetização, eram dados produzidos dentro da escola e demonstravam um pequeno recorte da nossa realidade. De posse desses dados, começamos a observar que métodos as professoras utilizavam para alfabetizar e como se dava a integração entre os diversos anos do ciclo de alfabetização. Naquele ano, desenvolvemos algumas ações que ainda se mantêm:

1. Reuniões de planejamento com as professoras do ciclo de alfabetização a fim de estabelecer, junto com elas, o método que seria utilizado para alfabetizar;

2. Grupos para a criação e confecção de jogos de alfabetização;

3. Monitoramento dos níveis de aquisição da escrita pelos alunos em todos os trimestres;

4. Atividades entre as turmas, nas quais participavam diversos professores, dividindo os alunos de acordo com o seu nível de aprendizagem para a realização de atividades específicas.

No mês de maio do ano seguinte, apenas 11% dos alunos estavam no nível pré-silábico e 57% dos alunos já estavam escrevendo alfabeticamente.

Esse monitoramento simples permitiu que a coordenação pudesse realmente acompanhar e intervir nas turmas de alfabetização e os professores perceberam que não estavam sozinhos nesse caminho. Descobrimos que, para que os alunos realmente se alfabetizem até os oito anos, não podemos deixar que as intervenções sejam realizadas apenas ao final do 3º ano.

O coordenador precisa estar atento aos movimentos que acontecem na sua escola, identificar os problemas e procurar por soluções. As respostas são encontradas quando todos podem ver claramente que existe uma dificuldade. Depois disso, faz parte do trabalho coletar, quantificar e analisar dados específicos.

Não sei se essa experiência pode ser replicada em outra escola, mas acredito que serve para ilustrar como é importante que o coordenador pedagógico e toda a equipe de gestão escolar estejam presentes no desenvolvimento de ações na escola que possam identificar quais são os problemas reais. Muitas vezes, não se observa realmente e temos a tendência de generalizar e ficar no discurso vazio de que a Educação no Brasil não tem jeito, de que todas as decisões são tomadas em esferas maiores e que não podemos fazer nada para transformar.

Realmente não precisamos nem conseguimos transformar a Educação do Brasil, mas precisamos e podemos transformar a Educação na nossa escola. O mais bonito é que quando todos olharmos para dentro as transformações serão percebidas lá fora.

Joice Maria Lamb é professora da rede municipal de Novo Hamburgo-RS desde 1991 e já teve turmas em quase todos os anos do Fundamental I e II. Atualmente, atua como coordenadora pedagógica da EMEF Profª Adolfina J. M. Dienfenthäler. É formada em Letras, tem especialização em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica e foi uma das 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 2017.