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22 de Março de 2018
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“Eu achava que todos são iguais, mas entendi que diferença não é um problema”

Como a aplicação da lei 10.639 ajudou uma diretora a enxergar a beleza da diversidade em sua escola

Por: Paula Peres
A professora Nilda contou sua história no seminário " Gente que transforma a Educação: experiências de equidade racial e de gênero", uma iniciativa do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) em parceria com o Instituto Unibanco, o Sesc e a Fundação Ford. Foto: Nego Junior

Nilda Fátima Moraes de Oliveira Silva é diretora da Escola Estadual Cândido Mariano, em Aquidauana, no Mato Grosso do Sul. Nilda, aliás, estudou nessa mesma escola. Quando se formou, escolheu ser professora lá, depois coordenadora, e agora atua na direção há três anos. “Eu amo aquela escola, é a minha comunidade”, diz. “E eu queria fazer algo para melhorar a nossa autoestima”.

A baixa valorização da comunidade acontece porque trata-se de um bairro pobre, de população ribeirinha e com várias aldeias indígenas ao redor. Isso não impede que eles tenham o maior Ideb não apenas da cidade, mas de todo o Mato Grosso do Sul. Ainda assim, a autoimagem precisa de uma massagem. “Se você chega na conversa falando que é do Baixadão, a coisa fica feia. Mas eu me sinto orgulhosa de ser de lá”, conta Nilda.

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A questão principal que Nilda gostaria de trabalhar com os alunos é do pertencimento à escola e ao povo ribeirinho. Atividades de teatro, dança e iconografia foram fundamentais para trabalhar a autoestima dos alunos e dos moradores do entorno. “A comunidade é valorizada, representada pelas iconografias Terenã, dos indígenas, e afro-brasileira, e os alunos aprenderam a cuidar melhor de si e de seus estudos através do teatro e da dança, quando se sentiram parte de um todo”, orgulha-se a diretora. “A pessoa que se ama e se respeita, busca melhorar. Como eles vão procurar estudar, fazer tarefas, coisas que para nós são naturais, se eles não se sentem parte da escola? Hoje eles já chegam falando que são do Baixadão e que são indígenas. Antes, diziam apenas que eram bolivianos”.

Em 1998, ainda como professora, Nilda lançou o trabalho pela primeira vez com o título “Somos todos iguais”. “Eu achei que estava abafando com o projeto, e convidei Ana Maria Sena, ativista do movimento negro de Campo Grande, para assistir”, conta.  Ao final da apresentação, Ana relatou seu incômodo com a frase. “As apresentações dos alunos foram porretas, mas essa frase... não caiu bem”. A notícia foi indigesta para Nilda. Ana explicou: “Nilda, o que você pretendia dizer com essa frase?” “Que nós merecemos ter os mesmos direitos que todas as pessoas têm”. “Mas olha o que você escreveu: ‘Somos todos iguais’”.

Aquela provocação ficou martelando na cabeça de Nilda, que passou os sete anos seguintes pesquisando sobre temáticas indígenas e afro-brasileiras juntamente com sua comunidade ribeirinha. Com base nos estudos e nas formações oferecidas pela rede estadual, Nilda percebeu que a beleza está justamente na diferença entre as experiências de vida e de história de cada povo. E tenta, desde então, passar isso aos seus alunos.

Em 2005, o nome do projeto mudou para “A diferença é o tempero da vida”, e segue assim até hoje na E.E. Cândido Mariano. Agora, as palavras “respeito” e “equidade” são pontos centrais da escola. E Nilda foi alçar voos maiores para o projeto, na Gerência de Educação da rede. Foi quando sentiu a resistência de seus colegas em aprender a trabalhar valores na escola. “Às vezes, a gente fala que o professor não aprendeu isso na escola, que no tempo dele foi só aprender a ler, escrever e fazer as quatro operações. Mas eu também não aprendi. Só fui ver isso em um seminário internacional, depois que eu havia me formado na faculdade. Então todo dia é dia de aprender”, diz.

Ela percebe uma mudança nas escolas depois da aprovação da lei 10.639, que determina a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira no ciclo básico. “Alguns lugares passaram a trabalhar esses conteúdos, mas outros não. Esperam somente para falar no Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, ou no Dia do Índio, 19 de abril. São coisas muito estanque”, critica.

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Nilda reconhece que trabalhar a inclusão e aceitação é um processo difícil. “Trabalhar com criança é muito fácil. Difícil é trabalhar com a gente mesmo e com os nossos colegas. Mas eu consegui algo importante: a comunidade. Talvez eu tenha facilidade por ser de lá, mas eu acredito que é possível engajar quando um projeto não surge da nossa cabeça, e sim de um problema real”.

Entre avanços e retrocessos, Nilda segue na luta, conversando desde cedo com os mais novos sobre a importância de reconhecer e aceitar as diferenças. “Tenho o hábito de usar o exemplo das mãos quando converso com meus pixotinhos das séries iniciais. Eu falo ‘Gente, quais dedos são iguais na nossa mão?’ Eles respondem ‘Nenhum’. ‘E qual dedo é mais ou menos importante?’ ‘Todos são importantes, professora’. Então tá aí. Que bom que nós, assim como nossos dedos, não somos iguais. Mas merecemos, sim, direitos iguais”.

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