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Blog Aluno em Foco

Questões sobre orientação educacional, ética e relacionamentos na escola

31 de Março de 2014
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A linguagem construtiva do educador – Parte 2

Por: Flávia Vivaldi
 É preciso ter cuidado na hora de elogiar o aluno para não engessá-lo acidentalmente, desestimulando-o a se arriscar diante de situações mais desafiadoras

É preciso ter cuidado na hora de elogiar o aluno para não engessá-lo acidentalmente, desestimulando-o a se arriscar diante de situações mais desafiadoras

É natural ouvirmos de muitos pais e educadores que os elogios são fundamentais e auxiliam na Educação e na formação de seus filhos e alunos. Os argumentos a favor variam entre a promoção da autoconfiança e a possibilidade de melhorar as relações. Entretanto, apesar dessa noção comum, conhecemos e lidamos com inúmeras crianças e jovens extremamente inseguros e com sérias dificuldades de se relacionarem socialmente de maneira positiva. Será que nesses casos os elogios não surtiram efeito? Todos os elogios contribuem na formação dos sujeitos?

Pois bem! O uso dos elogios segue a lógica da linguagem descritiva abordada no post da semana passada (clique aqui para ler). São dois tipos diferentes de elogios que surtem, evidentemente, efeitos diferentes em quem os recebe. Isso porque há uma grande diferença entre nossas palavras e a dedução de quem as escuta.

O que é necessário é distinguirmos os elogios valorativos dos descritivos (ou apreciativos). Acompanhe o raciocínio…

Elogios valorativos

Referem-se às características pessoais, aos traços de personalidade. Portanto, implicam julgamentos e não servem para ajudar na construção de imagens verdadeiras e positivas de si. Sendo assim, ao usarmos tantas vezes os famosos: “Como você é inteligente!”, “Seu texto está ótimo!”, “Que desenho lindo!”, o que provocamos nas crianças e jovens são resultados pouco desejáveis. No caso da inteligência, por exemplo, sem perceber, estamos dizendo à pessoa: “Pareça inteligente o tempo todo”, incentivando a crença de que inteligência é algo inato e descartando o fato de que o esforço é necessário em seu processo de construção.

A pesquisadora americana Carol Dweck realizou um estudo sobre os efeitos do elogio em que chamava individualmente as crianças e aplicava um primeiro teste de inteligência de fácil resolução. Em seguida, dava a nota a cada uma delas usando diferentes maneiras de elogiá-las. Para algumas, o elogio se referia à inteligência: “Você deve ser muito bom nisso!”. Para outras, o elogio era pelo esforço despendido no teste, como: “Você deve ter se esforçado bastante”.

No segundo momento, a pesquisadora deixava que a criança escolhesse o próximo teste esclarecendo que um deles, embora mais difícil, promovia uma rica aprendizagem quanto à resolução de problemas. A outra opção era de um teste tão fácil quanto o primeiro. Resultado: 90% das crianças que foram elogiadas por seu esforço escolheram o teste mais difícil. Já entre os que foram elogiados pela inteligência, a maioria escolheu o teste fácil. A conclusão foi de que as crianças que escolheram “parecer inteligentes” evitaram o risco de não serem bem-sucedidas no outro desafio.

Ou seja, a pesquisa aponta para os riscos de engessarmos acidentalmente nossos alunos com nossa maneira de elogiar, desestimulando-os a se arriscarem diante de situações mais desafiadoras. Dessa maneira, incentivamos os sujeitos a ficarem “reféns” das devolutivas valorativas dos outros. Cabem aqui tanto as manifestações citadas como os pequenos prêmios (estrelinhas, adesivos, carimbos ou, simplesmente, o “excelente” registrado em atividades diversas).

Fazer aquilo que é esperado – como uma tarefa organizada e completa –  não deve ser a exceção, mas sim a regra. Portanto, não merece um prêmio. Será que registrar elogios nas tarefas como “excelente” ou “muito bom” contribui para que o aluno tenha consciência daquilo que fez?

Elogios descritivos

A eficácia do elogio está em sua clareza e especificidade. Portanto, no lugar dos juízos de valor, o elogio deve descrever a ação, o fato, sem emitir julgamentos. Assim, informa-se a quem o recebe acerca do que foi feito ou falado que é merecedor de apreço. Ao descrever o que vê, ou o que sente diante de alguma atitude positiva, você permite que a criança construa sua própria imagem de si. Aí sim, a avaliação sobre seu trabalho é feita por ela mesma, entendendo realmente, que sua atitude é reconhecida como algo valoroso. São oportunidades ricas de construção da autoimagem positiva, sem o risco de acreditar e assumir “rótulos”.

Além disso, somente as crianças pequenas, com menos de 7 anos, aceitam e acreditam  no elogio valorativo. As mais velhas ficam atentas à intencionalidade. Nesse sentido, é um engano acreditar que frases clássicas como: “Vamos lá, você é inteligente e consegue facilmente fazer a atividade”, motivam o aluno e elevam sua autoestima. O elogio precisa ser real, e o sujeito deve se perceber merecedor.

Experimente o elogio descritivo e deixe aqui seu comentário, compartilhando os resultados obtidos.

Cumprimentos mineiros e até a próxima segunda.