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22 de Janeiro de 2019
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Como uma escola pode se articular com o bairro?

As escolas e seus parceiros podem ganhar muito com o trabalho baseado na organização do território

Por: Cláudio Neto
Crédito: Wikimedia Commons

O atual contexto sócio-histórico não permite mais o isolamento e a ação solitária das escolas. Aquela instituição tradicional identificada como local em que são ensinadas habilidades bem definidas como a leitura, a escrita, o cálculo e a oralidade não existe mais, ao menos não para isso apenas. Atualmente a escola é muito mais que isso e, por mais que se tenha apego àquele modelo, é muito difícil continuar com uma prática antiquada para as crianças e jovens do século 21. Não só porque eles demandam outra lógica de relação com o saber e com os docentes, mas também porque a maneira de se relacionar com o mundo se alterou profundamente. As nossas relações com as novas tecnologias, o consumo, o meio ambiente e os valores públicos são apenas alguns exemplos dessa transformação.

A escola não está alheia a tudo aquilo que acontece na sua área de abrangência. É lá que as pessoas vivem, trabalham, se divertem, estudam e dão vida ao lugar. Reconhecer isso é importante, e não significa que a escola tenha que se isolar no seu território e ignorar a sociedade mais ampla ou aquilo que acontece no Brasil e no mundo. Pelo contrário, além de considerar tudo isso, ela também deve olhar aquilo que está ao seu redor. As histórias de vida das pessoas e do lugar são importantes e devem, inclusive, fazer parte do currículo local. É quando a escola considera o trabalho com o seu território que ela tem melhor condição de fazer a necessária interconexão entre o currículo local e o currículo geral. Apesar de já haver alguns exemplos bem-sucedidos de trabalho com o território, este tipo de abordagem não é ainda muito difundido no Brasil, o que é uma grande contradição.

O que mudou?

Já foi o tempo em que os conhecimentos e saberes que circulavam na escola cabiam nos livros e nas mentes prodigiosas dos professores, como ocorria até o início da década de 1970, quando a educação era reservada a apenas 15% da população brasileira e o nível de informação não era tão disponível como hoje.

A democratização do acesso à educação e à informação alterou a maneira de se compreender o mundo, a partir da diversidade cultural dos estudantes e da apropriação das novas tecnologias, ainda que ressalvas devam ser feitas em relação às oportunidades concretas decorrentes do nível de inclusão ou de exclusão social.

A forma de organização escolar é a mesma há séculos, mas a relação dos alunos com o conhecimento e com os professores mudou consideravelmente. Prova disso são as variadas experiências de inovação noticiadas no Brasil e no mundo, por mais que elas ainda sejam tentativas embrionárias.

O que fazer e com que finalidade?

Atenta a isso, a escola deve buscar a integração com o seu bairro, ou território de pequena dimensão (para usar termos técnicos), seja no meio urbano ou rural. Isso significa sair do isolamento. Na nossa experiência na Escola Infante Dom Henrique, como estamos localizados na região central da cidade de São Paulo, buscamos a integração com esse território, com o objetivo de potencializar as aprendizagens e as oportunidades educacionais dos nossos estudantes e das suas famílias.

Orientados pela concepção da educação ao longo da vida, nós passamos a nos preocupar com a formação integral dos nossos estudantes e com a longevidade dos seus estudos. Melhor dizendo, a qualidade de ensino da nossa escola e as ações no território passaram a ser as bases da trajetória de sucesso dos estudantes desde o Ensino Fundamental até a Educação Superior.

Para tanto, foi necessário construir uma rede de relações com todos os parceiros presentes no território (Unidade Básica de Saúde – UBS –, escolas técnicas, universidades, institutos, igrejas, movimentos sociais, equipamentos culturais, empresas, diretoria regional, subprefeitura, centro de imigrantes, coletivos, lideranças comunitárias etc.) e principalmente com a comunidade escolar.        

Como fazer?

O maior desafio do gestor na educação contemporânea é promover a igualdade de oportunidades, tanto na dimensão intraescolar quanto na extraescolar. Ou seja: ele deve trabalhar para diminuir as desigualdades existentes entre os próprios alunos e entre a sua escola e as demais. Assim, além de fazer uma boa gestão pedagógica e administrativa do portão pra dentro da escola, cabe igualmente ao gestor escolar buscar parcerias no seu território de abrangência.

Uma boa maneira de fazer isso é reunir todo mundo para uma conversa sobre as suas ações no território e constituir um grupo de trabalho com periodicidade mensal, a partir de uma agenda comum e, se possível, realizar trabalhos compartilhados, especialmente com temas sociais que afetam todos os parceiros.

Não, não estou delirando. Isto é perfeitamente possível, e foi exatamente o que fizemos em fevereiro de 2017. A direção, juntamente com a coordenação pedagógica, fez um convite aos parceiros do território para uma reunião, e desde então temos nos reunido mensalmente na 3ª terça-feira de cada mês.

Logo no primeiro encontro, as agentes de saúde da UBS trouxeram à tona a grande quantidade de mulheres atendidas em razão de violência doméstica e outro dado igualmente preocupante: o nosso bairro (nosso território), naquele ano, tinha a maior taxa de mortalidade infantil da cidade de São Paulo. Esses assuntos foram pautados e se tornaram temas comuns para todos os parceiros.

Todos realizaram ações durante aquele semestre, e coube à nossa escola, entre outras coisas, transformar a violência de gênero num tema do nosso projeto pedagógico. Em 2018, esse tema foi transformado em um roteiro de aprendizagem e incorporado ao currículo.

De que maneira a escola pode se beneficiar com isso?

Isso depende da realidade de cada escola, pois cada lugar tem suas peculiaridades e necessidades, mas as escolas e seus parceiros têm potencial para se beneficiar com esse trabalho, pois o que o caracteriza é a lógica de reciprocidade, o que implica em divisão de responsabilidades.

Veja abaixo as quatro principais ações voltadas para o desenvolvimento local que beneficiaram os alunos e a comunidade escolar:

  • Parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP)
    Antes da parceria, parte da comunidade escolar nem sabia que o IFSP é uma escola técnica de nível médio e passou a ser também universidade. Por conseguinte, sequer sabia que os alunos, ao se formarem na nossa escola, poderiam estudar lá no Ensino Médio técnico. E parte da comunidade que sabia dessas informações não estudava lá porque não passava no vestibulinho.
    Para superar o problema, montamos um cursinho em parceria com o IFSP para preparar os nossos alunos para esse exame seletivo. O cursinho é oferecido de segunda a sexta-feira, das 13h30 às 15h50, para todos os alunos do 8º e do 9º ano, e conta com dez bolsas oferecidas pelo IFSP para remunerar os estudantes das licenciaturas e das engenharias que ministram as aulas.
    Já temos vários alunos que conseguiram ingressar no IFSP e em outras escolas técnicas da cidade de São Paulo, bem como alguns alunos já estão ingressando em universidade públicas.
  • Mudança no fluxo de atendimento da UBS
    As mulheres vítimas de violência doméstica passaram a ter atendimento especializado; programas de atendimento foram criados para os nossos alunos (alimentação, escovação, vacinação) e os encaminhamentos das crianças com deficiência passaram a ter prioridade. Foi criado um grupo de whatsapp para a comunicação direta entre os representantes da escola e da UBS. O nosso trabalho passou a ser mais integrado.
  • Educação integral
    A escola vem ampliando gradualmente o tempo de permanência das crianças, com o objetivo de melhorar a qualidade de ensino. Em 2017 foram quatro turmas (1º e 2º ano), em 2018 seis turmas (1º ao 3º ano) e em 2019 serão dez turmas (1º ao 5º ano).
  • Educação de Jovens e Adultos (EJA)
    A partir de uma pesquisa entre os parceiros do território e com os alunos da escola, identificou-se uma quantidade expressiva de pessoas com idade entre 15 e 60 anos que não tinham concluído o Ensino Fundamental. A partir desta constatação, nós abrimos o curso de EJA e as aulas terão início em fevereiro.

O diretor deve ter sólida formação política para propor a articulação do seu território?

Evidentemente não. Isso não depende de uma habilidade específica ou extraordinária do gestor. Aliás, isso não é e nem pode ser uma ação individual. O fundamental para o êxito desse trabalho é começar pela articulação dentro da própria escola, e foi isso que fizemos.

Começamos com toda a equipe gestora envolvida (diretor, assistente de diretor, coordenadores pedagógicos, secretária e alguns professores). Basta chegar à conclusão da necessidade de organizar o bairro e acreditar que a atuação colaborativa dos parceiros pode potencializar a qualidade do trabalho de todos e, consequentemente, melhorar o atendimento e a relação com a comunidade em geral.

O que eu posso dizer da nossa experiência é que há uma predisposição dos agentes do território em ouvir as escolas e colaborar. A escola está entre as instituições de maior prestigio social, e isso ajuda na interlocução com os outros parceiros para criar estratégias de desenvolvimento local e integrado dos diferentes atores.

PARA SABER MAIS
BARROS, Cristina, FERNANDES, Ricardo e GAMA, Rui. Atividades criativas, especialização inteligente e oportunidades para os territórios urbanos de pequena dimensão: o caso do carnaval de Estarreja. Urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana, 2018.

Claudio Marques da Silva Neto é diretor da EMEF Infante Dom Henrique, em São Paulo. Tem experiência em direitos humanos, formação docente, cultura escolar, indisciplina, violência e gênero. É mestre e doutorando em Educação pela Universidade de São Paulo (USP).

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