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Leia dicas e respostas da especialista em Psicologia da Educação, Catarina Iavelberg, sobre a vida escolar dos alunos e sobre a relação entre a instituição e a família

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Catarina Iavelberg
01 de Março de 2015 Imprimir
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O que fazer com os "melhores"?

É preciso desafiar os alunos com ótimo desempenho, mas também cuidar para não constranger ninguém

Por: Catarina Iavelberg
Catarina Iavelberg. Foto: Tamires Kopp Nosso Aluno

Catarina Iavelberg é assessora psicoeducacional especializada em Psicologia da Educação

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Neste espaço, já conversamos sobre estudantes de diferentes perfis: os que apresentam dificuldades no processo de aprendizagem, aqueles que por ter um desempenho mediano acabam se tornando invisíveis e os que, por razões pessoais ou sociais, necessitam de uma atenção especial. Enfim, tratamos de alunos que demandam cuidados por estar inseridos em diversos contextos, porém, ainda não abordamos aquele que muitas vezes acreditamos ser o "melhor".

Refiro-me aos que aprendem rapidamente, são ávidos pelo saber, realizam todas as tarefas solicitadas, fazem perguntas interessantes, têm prazer em estudar e costumam elevar o nível da discussão e dos debates em sala de aula. Pois é, precisamos também pensar sobre como agir com esses alunos.

Primeiramente, devemos ter cuidado com o grau de exposição deles em relação ao restante do grupo. Comentários como "Por que vocês não fazem como o Marcos?", "A Júlia traz sempre todas as lições de casa", "Vejam o exemplo do Henrique" e "O caderno da Renata está maravilhoso" não favorecem a aprendizagem dos colegas e tampouco contribuem com as relações interpessoais do aluno brilhante. Se em um primeiro momento esses supostos elogios podem produzir admiração, rapidamente tendem a se transformar em inveja ou ressentimento.

É preciso também estar atento para que o "bom estudante" não ocupe sempre o lugar de destaque nos debates, nas apresentações orais e nos murais. Isso não significa deixar de valorizar a participação e a produção deles, e sim ter cuidado com o excesso, pois pode causar constrangimento.

O "bom aluno" merece ser desafiado, devemos lhe propor situações complexas e, se necessário, de aprofundamento ou aprimoramento de conteúdos tratados em aula. Podemos contribuir com a formação dele incentivando leituras instigantes, participação em atividades extracurriculares ou mesmo envolvendo-o em iniciativas sociais como o grêmio estudantil e ações que auxiliem a vida da comunidade.

Se ele deve ser sempre estimulado, precisamos também permitir que falhe. Deslizes são esperados e muito bem-vindos. O erro, seja de caráter conceitual ou atitudinal, é importante para que ele se dê conta de que não é perfeito e tem muito a aprender. Muitas vezes esse aluno comete transgressões para ser punido e se sentir como os demais colegas. Evidentemente, isso não é feito de forma consciente. Nessas ocasiões, nossa parte é ter sensibilidade para entender o que está em jogo.

Finalmente, ser bom em tudo pode se tornar um problema no momento de deixar a escola. Explico: a maioria dos estudantes acaba trilhando o percurso profissional nas áreas em que teve melhor êxito. Isso não é regra, mas sabemos que ao longo do Ensino Fundamental e do Ensino Médio os jovens se identificam com certas disciplinas (normalmente as que têm maior facilidade) e definem a vida universitária em função de suas preferências. O "bom aluno" normalmente tem um excelente desempenho em muitos temas, quando não em todos, o que dificulta a tomada de decisão. Somado à questão da escolha, o "melhor" muitas vezes tem de se acertar com a alta expectativa depositada pelos professores e pela família.

Como podemos ver, todos enfrentam dificuldades, até mesmo aqueles que julgamos não ter problemas. Gostaria de concluir justificando o uso das aspas ao me referir ao bom e ao melhor aluno. Embora exista uma representação no imaginário social sobre esses adjetivos, as reais significações desses termos podem e devem ser contestadas. Afinal, bom ou melhor em relação a quê? A quem? Para quê? Mas esse é outro assunto.

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