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Como fazer a gestão de uma escola com poucos recursos

por:
Marlucia Brandão
Marlucia Brandão
Professoras de Marataízes-ES. Foto: Arquivo pessoal

Compartilhar opiniões e vivências é algo que me deixa entusiasmada, pois aprendo muito com as trocas e levo minha prática na direção em que muitos profissionais sérios e comprometidos têm me sinalizado. Em março, participei de um dos maiores eventos de Educação do mundo, o South by Southwest EDU Conference and Festival (SXSW EDU) — ou Conferência e Festival Sul-Sudoeste, em tradução livre para o português. O evento aconteceu na cidade de Austin, no Texas, Estados Unidos (EUA).

A experiência foi fantástica e agregou um novo brilho em meu olhar. Todos que subiram ao palco do evento falaram sobre experiências exitosas e mostraram como podemos nos posicionar diante das possíveis realidades que enfrentamos na rotina do dia a dia escolar.

LEIA MAIS: As lições que aprendemos no primeiro dia do SXSWedu

E foi com todo esse gás que retornei para a realidade da EMEIEF Boa Vista do Sul, na cidade de Marataízes, interior do Espírito Santo. Eu já conhecia os problemas da parte física e percebi que resolvê-los não seria nada fácil, pois demandaria tempo e apoio de pessoas certas. Com uma lista de prioridades na mão e muita disposição nos pés, saí a campo para pedir a ajuda necessária.

Também me reunir com professores, pais e líderes comunitários para um trabalho de sensibilização. Eu disse que a escola pertence aos filhos deles e à comunidade, e que quanto mais rápido ela se transforma em um espaço limpo e acolhedor, mais propícia à aprendizagem ela se torna.

Do que a escola precisava:

  • Pintura interna e externa (estava há 5 anos sem retoques)
  • Conserto de telhas quebradas, porque quando chovia inundava as salas
  • Reparo na parte elétrica
  • Troca das lousas
  • Novas maçanetas nas portas
  • Desentupimento dos vasos e novas descargas
  • Poda de uma árvore cuja raiz estava levantando o piso da sala dos professores

O que eu fiz:

  • Visitei a Secretaria de Obras, de Educação e do Meio Ambiente
  • Fiz reunião de pais e perguntei quem poderia ajudar
  • Pedi doações de tintas, lâmpadas e fios para o comércio local

O que eu consegui:

  • A Secretaria de Obras rebocou e pintou parte da escola e resolveu os problemas elétricos e hidráulicos
  • Ganhei ventiladores. Um pai de aluno instalou para mim
  • Pais, mães e alunos fizeram mutirão de pintura
  • Ganhei 10 quadros brancos da Secretaria
  • Outro pai de aluno pintou o muro da escola

Essa parte foi árdua, mas já conseguimos mudar o interior da escola. Suas paredes pálidas e desbotadas ganharam tinta fresca com o apoio da Secretaria de Educação e de Obras. As salas de aulas com portas e janelas sem trancas e danificadas foram restauradas com a ajuda de mutirões realizados por pais e atores da comunidade. Os quadros verdes antigos e deslizantes, que não aderiam mais ao giz, foram trocados por lousas brancas. Novas carteiras chegaram e estão à disposição dos nossos alunos. Como eu disse, foram necessárias muitas idas àqueles que podiam contribuir e também precisei de muito empenho de todos. Ainda falta muita coisa, mas a escola já está de cara nova!

No entanto, sabemos que a escola não se resume somente à parte física. É muito mais que isso. Ela se apoia em pilares importantíssimos e depende da vontade humana e profissional de cada ator que a compõe. Uma coisa foi mexer com algumas paredes sem vida e envelhecidas pelo tempo. Outra completamente diferente é tentar contagiar a prática docente de alguns professores, percebendo que alguns ainda se apoiam no determinismo de Gabriela: "eu nasci assim, eu cresci assim, vou morrer assim".

Sei que não será uma tarefa nada fácil tocar na estrutura humana dessa escola, mas acredito que com uma lista de prioridades nas mãos e um bom plano de ação, estaremos dando os primeiros passos em busca de uma mudança de comportamento e empoderamento dos docentes. Temos que manter um diálogo aberto e individual com cada professor, estendendo-lhe a ajuda necessária, ouvindo-o em suas necessidades primárias e fazendo-o entender que o gestor estará ali para ajudá-lo no que for preciso.

Por fim (e não menos importante) está o aluno, que ainda não vê na escola a possibilidade de crescimento e aprendizagem. E aí vem à minha memória a fala da chanceler das escolas de Nova York, Carmen Fariña no SXSWedu: "Temos que trabalhar para não deixarmos ninguém para trás". Tal afirmativa fez e faz acender em mim uma responsabilidade ainda maior do meu papel de gestora. Ninguém deve ficar para trás no processo: nem aluno, nem professor, nem família, nem comunidade. Lembrem-se: ninguém! 

É isso. Espero que a minha experiência, de alguma forma, também motive vocês, assim como fui motivada com a viagem.

Um grande abraço,

Marlucia Brandão

Marlucia Brandão é diretora da EMEIEF Boa Vista do Sul, em Marataízes-ES, desde 2016, e professora de Língua Portuguesa, com especialização em Linguística Aplicada ao Português, Psicopedagogia Institucional e Ciências da Educação. Deu aulas em todas as etapas, da alfabetização à Educação de Jovens e Adultos (EJA). Também foi Secretária de Educação de Marataízes entre 2011 e 2012.

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