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O que eu fiz quando uma professora me disse que foi agredida por um aluno

por:
Willmann Costa - Blogueiro temporário Blog Na Direção Certa
Willmann Costa
Foto: Getty Images

Há alguns anos, dirigi uma escola noturna. Vivenciei momentos complicados, mas de aprendizados significativos. A distorção idade-série era uma realidade entre os discentes, ou seja, muitos já haviam experimentado algum tipo de exclusão em suas vidas. Os conflitos faziam parte da rotina escolar. Relato aqui uma experiência que mudou minha maneira de entender os pedidos ocultos de socorro, de professores e alunos.

Em uma noite de sexta-feira, quase no fim do turno, Solange*, professora de Matemática, entrou na secretaria, em prantos, relatando que havia sido agredida por um aluno. A fala da docente estava permeada de palavras de baixo calão, ditas pelo aluno, e encheu de indignação os funcionários ali presentes. Todos olhavam para mim, exigindo uma atitude.

Chamei a professora para minha sala, porque precisava fazer o registro formal do ocorrido. Deixei-a sozinha por um instante e liberei a turma, pois já estávamos no final do turno e a professora estava sem condições de voltar para sala. Quando retornei, Solange já estava mais calma e pedi que ela relatasse o que havia acontecido. Ouvi-a atentamente.

Os alunos desta escola são muito complicados, mas o Vitor*, hoje, me tirou do sério. No início do ano ele até copiava a matéria, mas agora nem isso faz mais. Hoje, comecei a explicar um conteúdo novo e ele nem tirou o caderno da mochila, ficou o tempo todo olhando fixamente para mim, parecia deboche. Pedi que tirasse o fone dos ouvidos. Ele tirou um e deixou o outro. Quis me provocar, né? Aquilo foi me deixando irritada, mas me controlei. Depois passei um exercício e ele continuou com um fone no ouvido e olhando fixamente para o quadro, sem fazer nada. Já não conseguia mais me segurar, estava muito irritada. O senhor sabe, sempre dou o melhor de mim. Não estou aqui para servir de palhaça para adolescentes sem limites. Falei para ele sair da sala e disse que quem não quer aprender deveria ficar em casa, que desse a vaga para outro. Nesse momento ele virou um monstro. Falou vários palavrões, disse que não entendia nada na minha aula e continuou sentado. Insisti  que saísse. Ele veio para cima de mim! Se os outros alunos não interferissem, ele me agrediria fisicamente. Não dou mais aula naquela turma, a não ser que ele vá para outra. Na verdade, ele deveria ser expulso da escola, mas essa decisão é com o senhor.

Após cumprir a formalidade do registro, por escrito, perguntei se Solange poderia falar um pouco mais sobre o Vitor. A professora disse que não sabia nada da vida dele, somente que não falava muito e não se entrosava com facilidade. Às vezes, dormia durante a aula. Eu disse que ele tinha 17 anos, faria 18 no próximo mês e também sabia que ele trabalhava em uma farmácia, perto da escola, fazendo entregas. No ato da matrícula, conversei um pouco com a mãe dele, soube que ele era muito tímido, falava pouco, tinha dificuldade de aprender, e mesmo assim tinha o sonho de ser engenheiro.  

Solange já estava bem mais tranquila. Conversamos sobre outros assuntos, e eu disse que na segunda-feira decidiríamos o que fazer. No relato da professora, uma frase ficou ecoando em minha cabeça. Ela disse que sempre dava o melhor de si. Eu acredito que todos nós sempre damos o melhor que temos, ou o que podemos dar naquele momento. Como o clima já estava bem descontraído, verbalizei meu pensamento para Solange. Ela me olhou abismada e disse: “Diretor, você acredita que esse rapaz está dando o melhor de si? Ele não tem respeito nem por ele mesmo.”

É evidente que existem casos fora da curva, mas perguntei: "Você já parou para pensar nisso? Esqueça o Vitor. Você acha que as pessoas dão sempre o melhor de si?" Ela ficou pensativa. Falei para aproveitar o fim de semana e pesquisar. Ela riu. Ficamos de conversar na segunda.

No sábado de manhã, liguei para casa do Vitor e perguntei se ele queria conversar comigo sobre o que aconteceu, na escola, na noite passada. Ele disse que não, que  odiava a escola e que a professora Solange o ignorava. O melhor a fazer seria parar de estudar. Eu disse que tudo bem, mas mesmo assim, se ele quisesse falar comigo, estaria pronto para ouvi-lo. Ele quis saber se seria expulso. Eu respondi que havia ficado de falar com a professora na segunda-feira e que talvez precisássemos falar com um responsável, mas seria interessante conversar com ele primeiro.

Na segunda, Vitor já estava me esperando na porta da secretaria. Fomos para minha sala. Ele falava sem olhar para mim, parecia envergonhado. Disse que não se sentia bem na escola, porque não entendia quase nada. Sentia-se humilhado na aula da professora Solange, nunca gostou de Matemática. No início ainda copiava a matéria, mas não fazia nenhum sentido escrever o que não sabia ler depois.

Com o tempo, começou a sentir raiva da professora, pois ela só olhava para quem conseguia fazer os exercícios. Vitor falou durante meia hora sobre o seu incômodo com a escola, principalmente nas aulas de Matemática. Perguntei se achava correto agredir a professora e se descontrolar perante todos. Ele não respondeu. Disse que queria sair da escola, pois além de não acompanhar a turma também estava com vergonha. Todos iriam ignorá-lo ainda mais. Perguntei se eu poderia falar com a professora sobre o conteúdo de  nossa conversa e se ele estaria disposto a pedir desculpas para todos. Vitor disse que se desculparia com a professora, mas não teria coragem de fazer o mesmo com a turma, já que, na opinião dele, não havia feito nada de errado.

Quando a Solange chegou, me procurou para saber que decisão eu havia tomado sobre o Vitor. Falei que ele esteve na escola e estava disposto a parar de estudar. Relatei a conversa que tivemos. A professora ficou assustada quando disse que ele não copiava porque não entendia nada da matéria. Além disso, tinha vergonha dos colegas, pois se sentia inferiorizado. Falei que, geralmente, as pessoas ficam agressivas quando estão com medo. Ela quis falar da pesquisa que fez sobre o meu questionamento na sexta-feira. Fizemos uma boa reflexão sobre o assunto e falamos durante 40 minutos. No final de nossa conversa, Solange perguntou se não teria como dar mais uma chance para o Vitor.

Bem, na semana seguinte o Vitor voltou a frequentar a escola, pediu desculpas para a professora e prometeu que não teria mais vergonha de perguntar o que não estava entendendo. Em pouco tempo, suas notas aumentaram e ele e a professora Solange melhoraram o relacionamento. O incidente do Vitor me fez entender que, por trás de uma fala atravessada, um ato agressivo, há alguém pedindo socorro. Não perceber o sofrimento de quem deposita altas expectativas sobre a gente, é o mesmo que aproximar a pólvora do fogo. Todos correm o risco de sair chamuscado.

Até a próxima!

* Os nomes foram alterados para proteger a identidade dos envolvidos

Willmann Costa é diretor geral do Colégio Estadual Chico Anysio, no Rio de Janeiro-RJ, e professor de Língua Portuguesa e Literaturas. Tem mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade, pela Universidade Veiga de Almeida. Atuou como tutor do programa Gestão da Aprendizagem Escolar na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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