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19 de Dezembro de 2017 Imprimir
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Chegou a hora de se desligar: a importância
de ficar sem fazer nada

Descansar, "curtir a preguiça" e se desconectar são importantes antes de começar o ano letivo

Por: Ewerton de Souza
Foto: Getty Images

Chegou o fim do ano. Férias. É momento de desconectar. Afastar-se. Educadores e educandos querem jogar tudo para o alto! E curtir. Os amigos, as festas, as taças, as promessas. É tempo de passagem. Literalmente passar, e deixar tudo passar. Permitam-me compartilhar com vocês este belíssimo poema de Fernando Pessoa, “Liberdade”:

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...

Creio sinceramente que este poema manifesta o desejo de todos nós ao final de um ano cheio de trabalho. Mas... Pera aí! Somos educadores! Como podemos concordar com essa baderna?

Podemos justamente porque somos educadores! Sabemos mais que ninguém que, muitas vezes, na ânsia de realizar de forma competente nosso trabalho, corremos o risco de esquecer que, antes de tudo, somos seres humanos. Humanos educando humanos num ato que só pode ser da nossa espécie. Cheios, portanto, do desejo de fazer algo grandioso, um trabalho bem feito, transformador da realidade dos nossos educandos. Mas também sedentos de tardes preguiçosas, de dias de ócio, de vontade de se distanciar e desligar. E como isso é bom! Como canta outro grande poeta mineiro, Milton Nascimento, “Viva a preguiça! Viva a malícia! Que só a gente é que sabe ter.”

E faz tão bem. Para nós educadores, para nossos educandos e também para a escola. Agora é o tempo de desplugar, afastar-se da rotina, respirar. Embora de perto enxerguemos a realidade em seus detalhes – e devamos fazê-lo –, que bonita é a vista de uma cidade ao longe, do alto de um monte. Distanciar-se neste momento nos permitirá, depois, enxergar todo o nosso trabalho, o nosso ano letivo como uma bela obra inacabada a qual, depois desse tempo, retomaremos com o ânimo revigorado.

Não começaremos do zero, nunca começamos. Somos sujeitos históricos, fazemos história. Começaremos de onde paramos. E quando temos consciência do ponto em que paramos, então temos um projeto. Seja pessoal, um projeto de vida. Seja institucional, um projeto de escola. É tendo noção do caminho que percorremos que será possível dar continuidade ao nosso projeto e construir um novo ano letivo sem a impressão de que as coisas se repetem, mas sim de que as coisas vão se fazendo em nossa caminhada.

Perdoem-me as muitas citações, mas na ausência de taças reais, a melhor forma de brindar neste momento é com os versos que tanto estimo e que compartilho neste texto. Finalizo com o restante do poema de Fernando Pessoa e o quanto ele termina nos recordando da necessária humildade pedagógica, sem a qual nosso trabalho será somente uma montanha de arrogância:

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Boas festas!

Ewerton Fernandes de Souza é coordenador geral no CIEJA Clóvis Caitano Miquelazzo, escola da prefeitura de São Paulo que lida exclusivamente com Educação de Jovens e Adultos, especialmente na faixa etária dos 15 aos 18 anos. Foi um dos 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 de 2017. 

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