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17 de Abril de 2018 Imprimir
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É possível motivar os professores?

Desrespeito e falta de diálogo podem disparar situações em que não há bom humor e resiliência que resolvam

Por: Joice Lamb
Foto: Getty Images

Não sei se é possível motivar alguém. Também não sei se é função da coordenadora pedagógica tentar motivar os professores. Afinal de contas, não sei por que os professores estariam desmotivados. Mas eu sei, com certeza, o que me deixaria desmotivada, tanto como professora, quanto coordenadora.

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1. Eu estaria profundamente desmotivada se não recebesse meu salário em dia. Receber pouco, mas saber quando, tem uma diferença imensa de esperar um salário em um dia e receber parcelado dias depois. Quanto a isso, não existe o que uma coordenadora possa fazer, pois acredito que ela também estaria recebendo seu salário com atraso.

2. Eu também não conseguiria me manter motivada se a direção e a coordenação da escola não garantissem que eu pudesse utilizar as horas de atividade, conforme diz a lei, no planejamento das aulas. Se tivesse que substituir colegas faltantes ou participar de reuniões e eventos não relevantes e tivesse que planejar em casa depois, isso seria uma razão para a falta de motivação.

3. Ser chamada para reuniões fora do horário de trabalho, sem remuneração e depois ser aconselhada a “tirar as horas” no meu horário de planejamento. Principalmente porque essas reuniões, na maioria das vezes, são para passar recados que poderiam ter sido comunicados em um e-mail.

4. Preencher planilhas e planilhas que não vão servir para nada depois e apenas encher os arquivos da escola me deixariam muito desmotivada. Se a coordenação da escola onde eu trabalhasse não estivesse conectada e não permitisse planilhas online e interativas para evitar acúmulo de papel em gavetas e horas de trabalho perdido em relatórios que ninguém vai ler, me deixaria extra desmotivada.

5. Se minhas aulas fossem interrompidas diversas vezes no mês para que os alunos fossem cantar e bater palmas em datas comemorativas que nada têm a ver com o que estão estudando, eu estaria bem desmotivada. Ou se durante os 50 minutos da minha aula, de inglês, por exemplo, que tem apenas um período semanal e o professor precisa fazer um pequeno milagre a cada semana, fosse interrompida para dar recados que poderiam ser ajustados de outra forma.

6. Se os alunos da escola fossem indisciplinados e eu não percebesse um trabalho consistente por parte da coordenação pedagógica e da direção da escola para transformar essa realidade, estaria a ponto de pegar minhas coisas e ir jogar em outro campinho. Penso que não há nada mais desmotivador para um professor do que sentir-se oprimido pelos próprios colegas e se sentir sozinho nessa luta. E, ainda, acredito que não há desculpa para uma equipe gestora que permite tal coisa porque isso não deixa um professor só desmotivado, isso o torna doente.

7. Eu sempre gostei de receber visitas nas minhas aulas, poder “exibir” as habilidades dos meus alunos, perceber o olhar atento de um coordenador que pudesse enxergar o que não estou vendo, receber sugestões, opiniões e críticas. Sempre me desmotivou quando não havia uma coordenação atuante na escola. Uma coordenação que ouvisse os problemas e discutisse como grupo possíveis soluções para os casos

8. Outra coisa que não poderia faltar nesta lista e que é um dos pontos que mais serve para desmotivar professores é estar sujeito a uma equipe gestora parcial e injusta. Uma equipe que tem preferidos e que fixa regras diferentes, dependendo da cara do cliente. Uma equipe que não consegue sustentar suas decisões e fica dizendo que uma coisa não foi feita porque a Secretaria de Educação não permitiu ou que é ausente de tudo o que é importante na escola, mas ostenta uma cara diferente na frente da comunidade e dos alunos – enquanto intimida e oprime professores nos bastidores. Pode ter ficado intensa a minha indignação neste item, mas infelizmente é o que acontece muito pelo Brasil afora.

9. Minha desmotivação seria grande também seu eu percebesse, nas ações dos gestores, que eles tivessem se esquecido das demandas da sala de aula e achassem que quando os professores não acolhem uma ideia é porque eles estão desmotivados ou, mais triste ainda, porque são “preguiçosos”.

10. Minha lista está grande, mas vou parar no dez. Eu estaria desmotivada se trabalhasse numa escola que não considerasse a gestão democrática uma das coisas mais importantes para se ter uma escola de qualidade, numa escola que não fosse atenta ao pluralismo de opiniões e se construísse sem a participação da comunidade, dos alunos e dos professores.

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Não há uma fórmula mágica para resolver os problemas da Educação Brasileira, principalmente porque a desmotivação dos professores não é um problema, é um sintoma.  Para resolver este sintoma, os gestores precisam encontrar os verdadeiros problemas e isso só acontece quando as pessoas podem se sentar para um diálogo aberto, quando todos podem analisar a situação sem medos ou brios desmedidos, quando uma opinião sincera não faz perder uma amizade, quando se compartilha sucessos e fracassos.

Essa escola pode ser difícil de construir, mas também será difícil de derrubar.

 

Joice Maria Lamb é professora da rede municipal de Novo Hamburgo-RS desde 1991 e já teve turmas em quase todos os anos do Fundamental I e II. Atualmente, atua como coordenadora pedagógica da EMEF Profª Adolfina J. M. Dienfenthäler. É formada em Letras, tem especialização em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica e foi uma das 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 2017.

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