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30 de Agosto de 2018 Imprimir
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Professor brasileiro conta como é um curso de formação na Finlândia

Julio Page atualmente usa ferramentas e metodologias ativas que aprendeu na Europa em suas aulas no Instituto Federal do Rio de Janeiro

Por: Porvir *
Inverno em Helsink, na Finlândia   Foto: Divulgação

Em 2015, graças a uma parceria entre a Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do MEC (Ministério da Educação) e as universidades de ciências aplicadas finlandesas Hame University e Tampere University, fui um dos 34 professores brasileiros a participar do programa organizado pela União Europeia chamado VET Teachers for the Future (Professores para o futuro), que oferece capacitação para docentes do ensino profissional. Em alguns países ele é facultativo e em outros, obrigatório, como é o caso da Finlândia para todo professor que ingressa no ensino profissional. A versão personalizada para professores brasileiros aconteceu por meio da parceria entre a SETEC (Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação) e as universidades finlandesas participantes do programa.

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Na Finlândia, a educação é uma política de estado e não de governo, ou seja, os encaminhamentos gerais sobre o sistema educacional (desde questões pedagógicas, até de financiamento) são discutidos por uma câmara que inclui educadores e ex-educadores. Trata-se de um grupo técnico pensando a educação do país, que assim não depende das estratégias de um governo, que podem ser vistas como personalistas. Todas as escolas são financiadas pelo governo federal com orçamento descentralizado para os municípios. A ideia é que as pessoas estudem perto de suas casas e logo garantem que todas as escolas tenham o mesmo nível de infraestrutura (salas de aula, espaço de recreação, refeitório, auditório, sala de música, ambientes de aprendizagem em geral) e de recursos humanos (professores com o mesmo nível de formação, com boas condições de trabalho, valorização e remuneração). Simples, não? O investimento na formação é uma das prioridades do sistema educacional e todo professor de qualquer nível de ensino precisa ter, minimamente, o título de mestre.

Apesar de ainda utilizarem também o método tradicional de ensino, os profissionais da educação têm clareza que este não funciona mais sozinho no mundo moderno. Logo, as ferramentas digitais, bem como metodologias de aprendizagem centradas no estudante como Project, Problem and Phenomena Based Learning (educação baseada em projetos e problemas) são amplamente aplicadas. Uma característica do sistema finlandês é o incentivo e a busca contínua da construção colaborativa, ao invés da competição.

Durante os cinco meses de duração do VET Teachers, realizamos visitas a diversas escolas e universidades. As reuniões e aulas discutiam os eixos temáticos de formação inicial e continuada que são aplicados aos próprios professores finlandeses: métodos dialógicos, educação baseada em projetos, formação de líderes, ensino à distância no século 21, construção de currículo baseado em competências, dentre outros temas. Também houve tempo para atender aos projetos enviados por cada professor brasileiro, bem como sistematizar a criação de comunidades de aprendizagem nos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia.

Também tive contato com ferramentas digitais como Kahoot (quiz), Padlet (colaboração), Polleverywhere (apresentações), Schoology (gestão), Plickers (avaliação formativa), Socrative (gestão de sala de aula), etc. Há diversas outras ferramentas digitais disponíveis na rede, a grande maioria com acesso gratuito, que ajudam nos processos de inovação em educação. Muitas delas não trazem necessariamente inovação em termos de metodologia, no entanto causam um fator de engajamento muito grande, pois o aluno precisa utilizar o smartphone ou o tablet, elementos quase que indissociáveis na vida dos nativos digitais dos dias atuais.

Os 34 professores brasileiros da turma 2 do VET foram divididos nas Universidades de TAMK (Universidade de Ciências Aplicadas de Tampere), na cidade de Tampere, e HAMK (Universidade de Ciências Aplicadas de Hame), onde fiquei na cidade de Hämeenlinna. A rotina começava às 8:30 e ia até as 16 horas, entre aulas, reuniões, visitas, trabalhos em grupos e dedicação ao projeto de desenvolvimento no retorno ao Brasil. O idioma utilizado era o inglês e a universidade ofereceu um curso básico de finlandês, que cursei em 12 aulas. Na HAMK, o curso foi conduzido pelo grupo de facilitadores da equipe do Global Education, da Professional Teachers Education Unit (faculdade de formação de professores).

Universidade de Tecnologia de Tampere, na Finlândia   Foto: Reprodução/Facebook

No retorno ao Brasil, procurei iniciar a aplicação das metodologias e ferramentas, bem como fomentar o diálogo e a colaboração junto a meus colegas para construção de uma comunidade de aprendizagem que utiliza ferramentas de desenvolvimento profissional para docentes baseadas no diálogo e troca de experiências como por exemplo o “Peer Group Mentoring” (grupo de mentoria por pares).

No IFRJ (Instituto Federal do Rio de Janeiro), onde dou aula de Análise Química Instrumental no campus Duque de Caxias, o currículo precisa dialogar com as necessidades gerais da sociedade, bem como com os arranjos produtivos, sociais e culturais locais e regionais. Mesmo em uma instituição de formação profissional, tornar o currículo baseado em competências por meio de metodologias que permitam o protagonismo do aluno no processo de aprendizagem é um grande desafio que tenho buscado enfrentar colaborativamente com meus colegas e, sobretudo, com os estudantes.

Assim como nós professores, os estudantes também estão habituados às metodologias tradicionais, o que pode causar certa resistência no início da implementação de métodos inovadores. Nesse processo, o diálogo aberto e planejamento das atividades foram fundamentais para que meus colegas e estudantes se interessassem pelo novo tipo de abordagem.

Um detalhe essencial é o acompanhamento do estudante e do processo de uma maneira geral e para isso é importante realizar uma atividade de pré-tarefas buscando dos estudantes seus conhecimentos prévios e expectativas em relação ao curso e à disciplina, bem como atividades de feedback (retorno avaliativo) e feedforward (sugestão futura) ao longo e ao final do processo. É preciso fomentar a criação de uma relação de confiança entre professores e alunos e, sobretudo, confiança no processo de aprendizagem e desenvolvimento de habilidades e competências. Ao final do semestre, os alunos têm se sentido à vontade para dar feedback e também realizam tanto uma autoavaliação quanto uma avaliação por pares, que me permitem avaliar o funcionamento das novas metodologias e ferramentas.

Também participo do podcast Papo de Professor, que foi fundado e é coordenado pelo professor Damione Damito, do IFSP (Instituto Federal de São Paulo). Trata-se de uma maneira de apoiar a formação continuada de professores, que tem como objetivo fomentar a colaboração por meio da divulgação de novas práticas, metodologias, troca de experiências. É uma ferramenta muito interessante para quem busca processos de inovação em educação.

 

Julio Page de Castro é graduado em Química, mestre em tecnologia de processos químicos e bioquímicos UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Possui certificado desenvolvimento profissional de profesores pela Universidade de Ciências Aplicadas de Hamk, da Finlândia. 

* Artigo publicado originalmente no site Porvir

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