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02 de Outubro de 2018 Imprimir
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Quando eu me pergunto se ser professor realmente vale a pena

Por: Joice Lamb
Crédito: GettyImages

Quando eu era adolescente nunca quis ser professora.

Não foi meu sonho de criança. Pelas circunstâncias acabei num curso de magistério. Era uma boa estudante, então, cumpri tudo direitinho: fiz estágio, me formei e passei logo num concurso público. Era 1991.

Lembro, como se fosse hoje, que eu estava chegando na escola pela primeira vez (era uma escola recém-inaugurada) e eu pensei: “Que pena que eu terei que ir embora no próximo ano, porque logo vão perceber que eu não nasci para ser professora”.

Distantes 27 anos, este pensamento não poderia estar mais equivocado. A gente nasce para ser o que quiser ser. Eu não precisava, como pensei no início, ter nascido “marcada” para ser professora. A profissão acabou sendo minha por escolha. Na juventude, escolhi ficar.

Se pudesse fazer tudo de novo, escolheria novamente o magistério. Não porque eu tenha algum dom exclusivo dos professores, mas porque o fazer humano me encanta, bem como o pensamento humano, a transformação dos alunos – crianças, jovens ou adultos. Sou realmente uma pessoa encantada pela transformação, pela história da lagarta que um dia vira borboleta.

Crédito: Suzanne D. Williams/Unsplash

Repito que você nasce para ser o que você quiser ser. Alguns de nós escolhem ser professores.

Não houve um momento da minha carreira no magistério que a profissão fosse vista com aquele respeito que achamos que merecemos. Ouço as pessoas falando que há muito tempo atrás, num reino tão tão distante, a profissão foi valorizada. Que o professor era muito importante e respeitado. Também não foi nos anos 80, quando eu era aluna do 1º Grau (o atual Ensino Fundamental). No Rio Grande do Sul, os professores já tinham que fazer greves longas e desgastantes naquela época. Talvez tenha sido antes ainda, quando os professores eram poucos e os únicos na cidade que detinham o conhecimento da leitura e da escrita. Também neste tempo, os alunos eram poucos, visto que a matrícula na escola ainda não era universal.

Hoje, então, não parece muito diferente de ontem e lutamos as mesmas batalhas que já deveriam ter sido vencidas nesse país. Lutamos contra a evasão escolar, contra a reprovação, contra a falta de perspectiva da população – que não consegue ver na Educação uma saída –, contra as políticas públicas que iniciam e nunca terminam, contra as pessoas que acham que sabem o que é o melhor para a escola sem nunca terem pisado em uma depois de deixarem de ser alunos.

Ainda vale a pena ser professor?

Quando chega outubro, o dia do professor nos deixa nostálgicos e ficamos pensando se fizemos uma boa escolha. Será que fizemos? Será que eu indicaria a profissão como carreira?

As pessoas neste mês tecem homenagens e dizem que somos guerreiros, corajosos, iluminados até. Não sei. Não teriam as mesmas qualidades os médicos, os enfermeiros, assistentes sociais, os socorristas, os policiais, enfim todos aqueles que trabalham na assistência básica à população e precisam avançar mesmo quando o salário não chega?

Penso que escolher a profissão de professor não nos faz melhores, mas nos coloca num lugar importante para o futuro do nosso país e para o desenvolvimento saudável da nossa sociedade. Trabalhar como professor nos coloca em um espaço, ao mesmo tempo, estimulante e frustrante, porque podemos muito, mas não podemos tudo.

As escolas e os professores são os laços que podem unir as comunidades, principalmente quando compreendem que não conseguem fazer tudo sozinhos, que precisam promover a união entre todos os que trabalham e militam naquele território a fim de que nossos jovens e suas famílias sejam saudáveis.

A Educação é um compromisso coletivo, no qual cada um contribui com a sua especialidade. Viver em sociedade não é simples e resolver estes problemas também não é.

Quem escolhe ser professor hoje precisa compreender essa complexidade, precisa compreender que nem tudo se resolve só com o nosso esforço ou talento próprio e que, cada vez mais, precisamos criar e fortalecer os encontros e o debate de ideias, na busca das soluções necessárias para os problemas daquele lugar.

Quem escolhe ser professor hoje, precisa saber que o professor para o qual se curva o imperador no Japão não existe, é uma lenda, um mito. O professor que ninguém contesta, que ninguém duvida e que todo mundo ama também não existe.

Crédito: David Clode/Unsplash

O professor, como ser humano que é, constitui-se imperfeito e em constante transformação. Aqueles que compreendem isso são os mais felizes, os mais capazes de exercer a profissão com a leveza necessária para não ficarem presos em dogmas e em estereótipos.

Penso que sou uma dessas professoras que nunca se cansa de se espantar com a transformação de uma criança, que nunca se cansa de ser surpreendida com o as conclusões de um grupo de adolescentes ou que também aprende com os jovens professores e professoras que estão começando o seu caminho. Para nós, ser professor vale a pena.

Um abraço,

Joice Maria Lamb

Professora da rede municipal de Novo Hamburgo-RS desde 1991 e já teve turmas em quase todos os anos do Fundamental I e II. Atualmente, atua como coordenadora pedagógica da EMEF Profª Adolfina J. M. Dienfenthäler. É formada em Letras, tem especialização em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica e foi uma das 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 2017.

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