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Opinião

Denunciar problemas escolares no Face não é solução

OPINIÃO: Se a ideia é mudar comportamentos e provocar reflexão, há alternativas melhores dentro das próprias escolas

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Rodrigo Ratier Editor de NOVA ESCOLA, doutor em Educação pela USP e professor de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero
Ilustração: Patrick Cassimiro

Está certo usar a combinação celular + rede social para divulgar problemas escolares? Fiquei com isso na cabeça depois de ler duas reportagens que viralizaram no último mês.

A primeira mostra uma discussão entre dois alunos homossexuais e a diretora da instituição. Um vídeo foi divulgado como evidência de homofobia. O caso teria ocorrido no início de junho. A segunda é sobre uma escola que pediu a seus alunos do 4º ano para irem fantasiados de “favelados do Rio de Janeiro”. Supostamente, segundo a escola, seria uma atividade sobre desigualdade baseada na música “Alagados”, dos Paralamas do Sucesso (que tem o trecho “Alagados, Trenchtown, Favela da Maré”). Uma mãe postou a foto do comunicado no Facebook como prova de racismo.

Nos dois casos, me parece que as escolas cometeram equívocos graves. A do segundo episódio inclusive reconheceu isso. Não pretendo, aqui, opinar sobre o mérito dos casos. Mas questionar se a exibição das imagens de celular em praça pública foi mesmo a melhor solução.

O Facebook e a punição incontrolável

Certamente as pessoas retratadas nos flagrantes foram punidas. Se não por suas instituições, pelo sempre implacável tribunal das redes sociais. Duvida? Veja aqui a reação dos comentaristas no post em que a escola do episódio dos favelados pede desculpas pelo “grande erro”.

A dúvida é: elas aprenderam? Penso que a sanção desprovida de reflexão raramente traz bons resultados. E quando a punição toma o atalho direto das redes sociais, ela se amplifica de maneiras incontroláveis. Quem já sofreu os efeitos de uma onda de ódio na internet sabe do que estou falando.

Numa escola madura, em que há confiança entre os diversos integrantes da comunidade, boa parte dos flagrantes poderia ser resolvido internamente. Os erros precisam ser pontuados – e aí o celular pode, muito eventualmente, servir como prova, um escudo contra injustiças.

A restauração dentro da escola

O fundamental é haver caminhos para que a equipe gestora consiga dar conta do ocorrido. Por exemplo: a coordenadora recebe o vídeo e pede um tempo para conversar com professores, alunos ou outros envolvidos para entender o problema. Aliás, isso é algo que aprendemos aqui com nossa colunista Telma Vinha: o foco está no problema ocorrido, e não em “de quem é a culpa”.

A partir daí, é possível fazer um trabalho em assembleias – momento em que se discutem questões coletivas – ou círculos restaurativos – mediações privadas úteis em situações particulares de conflito. O compartilhamento das versões de quem participou do episódio visa pensar no que aconteceu.

Isso pode gerar pedidos de desculpas e, se for o caso, algum tipo de sanção. Mas sem o julgamento de exceção do celular como arma para as redes sociais, que só desgasta relações. E com aprendizado para que a situação não se repita. Essa é, no fundo, uma das principais funções da escola na Educação para a vida em sociedade.

* As opiniões do autor deste artigo não refletem necessariamente o ponto de vista de NOVA ESCOLA

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