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08 de Novembro de 2018
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Avaliar o aluno é avaliar a escola

Final do ano letivo é o momento de pensar no que faremos com observações colhidas sobre o desenvolvimento dos estudantes

Por: Ewerton de Souza
Alunos sentados em mesas enfileiradas escrevendo em um papel com lápis
Foto: Getty Images

Avaliar o aluno é sempre, de alguma forma, avaliar a escola. A sentença soa bem óbvia, não é? No entanto, não tenho certeza se essa obviedade atingiu nossas escolas a ponto de se sedimentar como princípio de nossos Projetos Político-Pedagógicos. Aqueles aos quais sempre me refiro, os reais. Não o calhamaço geralmente entregue aos supervisores, por pressão, e reciclado ano após ano.

Avaliar o aluno é avaliar a escola. Talvez isso deva ser repetido como um mantra em nossos horários coletivos a fim de que penetre profundamente em nosso cerne de educadores. Se não está presente lá, nas nossas convicções pedagógicas mais íntimas, também não é culpa nossa, não ao menos exclusivamente. Falo por mim. Creio que muito do que já fiz em sala de aula foi uma reprodução do que vi fazerem comigo na escola. Coisas boas e coisas não tão boas, principalmente quando se fala em avaliação. Não aprendi a dar aula na faculdade, e muito menos no estágio. Ao me deparar com uma turma de educandos e, sem saber ao certo o que fazer, o que efetivamente fiz foi repetir as aulas e, portanto, os métodos de meus ex-professores. Em alguns casos, não por muito tempo, graças a Deus!

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Não me sentia confortável assim, trabalhando com pontinhos e chamando isso de avaliação. Acredito que compreender que a escola não desenvolvia meu potencial, se não foi o único motivo do meu abandono escolar, foi um dos que me fizeram desistir quatro vezes da escola e ir terminar o Ensino Médio na Educação de Jovens e Adultos. Não que eu fosse um aluno espetacular, não o era, mas certamente, como todos, tinha um potencial humano a desenvolver. E, talvez, o que tenha me feito despertar como educador foi isso, a revolta com o sistema educativo de que fui aluno e o desejo de não repetir essa experiência de frustração com meus educandos. Mais, a formação continuada foi o que permitiu me transformar em um melhor educador – e continua permitindo.

Correspondência entre avaliações

Mas após essa digressão autobiográfica, gostaria de pensar objetivamente em alguns pontos nos quais podemos refletir sobre a correspondência entre avaliação da escola e avaliação do aluno.

O ponto inicial do qual podemos partir é o da escuta. Como educadores e, por conseguinte, avaliadores, ouvimos o nosso educando? Cabe considerar se damos a ele a oportunidade de refletir sobre sua própria aprendizagem e realizar uma crítica desse processo, tanto em relação à escola quanto em relação a si mesmo. O que formalmente chamamos de autoavaliação é fundamental para que possamos gerar o comprometimento das crianças, jovens e adultos com o ato de estudar, para lembrar Paulo Freire. Se isso não acontece em nossos processos de avaliação, podemos questionar se realmente nosso projeto de escola tem o aluno como centro do processo de ensino e aprendizagem. E isso pode acontecer de vários modos: rubricas, produções de texto, rodas de conversa, participação nos conselhos de classe... Mas todos buscando o essencial: escutar realmente o educando, compreendendo-o e acolhendo as críticas que ele venha a manifestar sobre o professor e a escola, mas também auxiliando-o, por meio do diálogo, num exercício de autocrítica.

Outro ponto importante é a variedade de indicadores e instrumentos. Não dá para avaliarmos nosso educando pensando exclusivamente em fazê-lo por meio de uma prova bimestral ou a partir de um único aspecto de seu desenvolvimento. Embora provas sejam formas de avaliação que considero importante, seria empobrecer o processo de percepção do desenvolvimento de nossos educandos propor uma única forma de avaliar suas aprendizagens. Até porque a prova não é capaz de dar conta da multiplicidade de dimensões que alegamos desenvolver nas nossas crianças, jovens e adultos quando vamos descrever o processo avaliativo em nossos projetos. E aí vem o desafio. Como avaliamos o desenvolvimento não só cognitivo, mas físico, afetivo, linguístico, ético, estético, social de nossos alunos? Certamente uma série de instrumentos e indicadores enriquecerão nossa proposta avaliativa e nos darão a segurança de cometer este ato arrogante que é avaliar outro ser humano. Se realizado com humildade pedagógica, para referir mais uma vez a Paulo Freire, a avaliação pode ser uma forma de edificar e não de destruir outros sujeitos.

Um terceiro e último ponto ao qual gostaria de chamar a atenção são as consequências da avaliação. O que fazemos com aquilo que percebemos em nossos educandos durante o processo avaliativo? Avaliar somente tem sentido se transformar a realidade do educando e da escola. Avaliar para atribuir um número, avaliar para classificar burocraticamente em uma ou outra etapa do ensino, avaliar para punir não transforma ninguém, pelo contrário, pode frear um processo de transformação do sujeito. Portanto, é de suma importância que a avaliação do aluno venha para aprimorar o projeto da escola, que é feito para o aluno. Quando me refiro às consequências da avaliação, penso que esta deve ser o início de um processo de reflexão, por parte da equipe escolar, sobre como a escola desenvolveu seu trabalho e o que precisa ser mudado para que ela possa fazê-lo com mais competência e mais comprometimento em relação aos seus princípios. Daí que, após a avaliação do educando, é fundamental a avaliação da escola buscando estabelecer os pontos que devem ser revistos no projeto para que a escola cumpra sua vocação de ser um espaço de desenvolvimento humano e não somente um órgão expedidor de certificados e diplomas.

Por fim, estamos em mais um final de ano letivo. Cabe, neste momento, pensar na responsabilidade que a escola tem em avaliar seus alunos. E, embora esse processo deva ocorrer durante todos os meses do ano, não podemos deixar de imaginar que talvez esse último período seja um momento oportuno de pensar no que faremos com as observações colhidas do desenvolvimento de nossos educandos. Uma proposta é usá-las para nos reinventarmos enquanto educadores e enquanto escola para o ano posterior. Para fazer uma referência à recente visita de Roger Waters ao Brasil, não façamos de nossos alunos, sejam crianças, jovens ou adultos, apenas outros tijolos no muro. Boa avaliação! 

Ewerton Fernandes de Souza é coordenador geral no CIEJA Clóvis Caitano Miquelazzo, escola da prefeitura de São Paulo que lida exclusivamente com Educação de Jovens e Adultos, especialmente na faixa etária dos 15 aos 18 anos. Foi um dos 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 de 2017.

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